ðÁÂÌÏ ëÏÜÌØÏ. áÌÈÉÍÉË (port) Paulo Coelho. O Alquimista --------------------------------------------------------------- © Copyright Paulo Coelho Paulo Coelho's Home page ¡ http://www.paulocoelho.com.br/ Origin: http://www.cyberminas.com.br ¡ http://www.cyberminas.com.br Date: 14 Aug 2003 --------------------------------------------------------------- EdiÚÇo especial da pÂgina www.paulocoelho.com.br , venda proibida PREFâCIO ê importante dizer alguma coisa sobre o fato de O Alquimista ser um livro simbÕlico, diferente de O DiÂrio de um Mago, que foi um trabalho de nÇo-ficÚÇo. Durante onze anos de minha vida estudei Alquimia. A simples idÊia de transformar metais em ouro, ou de descobrir o Elixir da Longa Vida, j era fascinante demais para passar despercebida a qualquer iniciante em Magia. Confesso que o Elixir da Longa Vida me seduzia mais: antes de entender e sentir a presenÚa de Deus, a idÊia de que tudo ia acabar um dia era desesperadora. De maneira que, ao saber da possibilidade de conseguir um lÎquido capaz de prolongar por muitos anos minha existËncia, resolvi dedicar- me de corpo e alma Á sua fabricaÚÇo. Era uma Êpoca de grandes transformaÚÈes sociais ­ o comeÚo dos anos setenta ­ e nÇo havia ainda publicaÚÈes sÊrias a respeito de Alquimia. Comecei, como um dos personagens do livro, a gastar o pouco dinheiro que tinha na compra de livros importados, e dedicava muitas horas do meu dia ao estudo da sua simbologia complicada. Procurei duas ou trËs pessoas no Rio de Janeiro que se dedicavam seriamente Á Grande Obra, e elas se recusaram a me receber. Conheci tambÊm muitas outras pessoas que se diziam alquimistas, possuÎam seus laboratÕrios, e prometiam me ensinar os segredos da Arte em troca de verdadeiras fortunas; hoje entendo que elas nada sabiam daquilo que pretendiam ensinar. Mesmo com toda a minha dedicaÚÇo, os resultados eram absolutamente nulos. NÇo acontecia nada do que os manuais de Alquimia afirmavam em sua complicada linguagem. Era um sem-fim de sÎmbolos, de dragÈes, leÈes, sÕis, luas e mercßrios, e eu sempre tinha a impressÇo de estar no caminho errado, porque a linguagem simbÕlica permite uma gigantesca margem de equÎvocos. Em 1973, j desesperado com a ausËncia de progresso, cometi uma suprema irresponsabilidade. Nesta Êpoca eu era contratado pela Secretaria de EducaÚÇo de Mato Grosso para dar aulas de teatro naquele estado, e resolvi utilizar meus alunos em laboratÕrios teatrais que tinham como tema a TÂboa da Esmeralda. Esta atitude, aliada a algumas incursÈes minhas nas Âreas pantanosas da Magia, fizeram com que no ano seguinte eu pudesse experimentar na prÕpria carne a verdade do provÊrbio: "Aqui se faz, aqui se paga". Tudo a minha volta ruiu por completo. Passei os prÕximos seis anos de minha vida numa atitude bastante cÊtica com relaÚÇo a tudo que dissesse respeito Á Ârea mÎstica. Neste exÎlio espiritual, aprendi muitas coisas importantes: que sÕ aceitamos uma verdade quando primeira a negamos do fundo da alma, que nÇo devemos fugir de nosso prÕprio destino, e que a mÇo de Deus Ê infinitamente generosa, apesar de Seu rigor. Em 1981, conheci RAM e o meu Mestre, que iria conduzir-me de volta ao caminho que est traÚado para mim. E enquanto ele me treinava em seus ensinamentos, voltei a estudar Alquimia por minha prÕpria conta. Certa noite, enquanto conversÂvamos depois de uma exaustiva sessÇo de telepatia, perguntei porque a linguagem dos alquimistas era tÇo vaga e tÇo complicada. ­ Existem trËs tipos de alquimistas ­ disse meu Mestre. ­ Aqueles que sÇo vagos porque nÇo sabem o que estÇo falando; aqueles que sÇo vagos porque sabem o que estÇo falando, mas sabem tambÊm que a linguagem da Alquimia Ê uma linguagem dirigida ao coraÚÇo, e nÇo Á razÇo. ­ E qual o terceiro tipo? ­ perguntei. ­ Aqueles que jamais ouviram falar em Alquimia, mas que conseguiram, atravÊs de suas vidas, descobrir a Pedra Filosofal. E com isto, meu Mestre ­ que pertencia ao segundo tipo ­ resolveu me dar aulas de Alquimia. Descobri que a linguagem simbÕlica, que tanto me irritava e me desnorteava, era a ßnica maneira de se atingir a Alma do Mundo, ou o que Jung chamou de "inconsciente coletivo". Descobri a Lenda Pessoal, e os Sinais de Deus, verdades que meu raciocÎnio intelectual se recusava a aceitar por causa de sua simplicidade. Descobri que atingir a Grande Obra nÇo Ê tarefa de poucos, mas de todos os seres humanos sobre a face da Terra. ê claro que nem sempre a Grande Obra vem sob a forma de um ovo e de um frasco com lÎquido, mas todos nÕs podemos ­ sem qualquer sombra de dßvida ­ mergulhar na Alma do Mundo. Por isso, "O Alquimista" Ê tambÊm um texto simbÕlico. No decorrer de suas pÂginas, alÊm de transmitir tudo o que aprendi a respeito, procuro homenagear grandes escritores que conseguiram atingir a Linguagem Universal: Hemingway, Blake, Borges (que tambÊm utilizou a histÕria persa para um de seus contos), Malba Tahan, entre outros. Para completar este extenso prefÂcio, e ilustrar o que meu Mestre queria dizer com o terceiro tipo de alquimistas, vale a pena recordar uma histÕria que ele mesmo me contou no seu laboratÕrio. Nossa Senhora, com o Menino Jesus em seus braÚos, resolveu descer Á Terra e visitar um mosteiro. Orgulhosos, todos os padres fizeram uma grande fila, e cada um chegava diante da Virgem para prestar sua homenagem. Um declamou belos poemas, outro mostrou suas iluminuras para a BÎblia, um terceiro disse o nome de todos os santos. E assim por diante, monge apÕs monge, homenageou Nossa Senhora e o Menino Jesus. No ßltimo lugar da fila, havia um padre, o mais humilde do convento, que nunca havia aprendido os sÂbios textos da Êpoca. Seus pais eram pessoas simples, que trabalhavam num velho circo das redondezas, e tudo que lhe haviam ensinado era atirar bolas para cima e fazer alguns malabarismos. Quando chegou sua vez, os outros padres quiseram encerrar as homenagens, porque o antigo malabarista nÇo tinha nada de importante para dizer, e podia desmoralizar a imagem do convento. Entretanto, no fundo do seu coraÚÇo, tambÊm ele sentia uma imensa necessidade de dar alguma coisa de si para Jesus e a Virgem. Envergonhado, sentindo o olhar reprovador de seus irmÇos, ele tirou algumas laranjas do bolso e comeÚou a jogÂ-las para cima, fazendo malabarismos, que era a ßnica coisa que sabia fazer. Foi sÕ neste instante que o Menino Jesus sorriu, e comeÚou a bater palmas no colo de Nossa Senhora. E foi para ele que a Virgem estendeu os braÚos, deixando que segurasse um pouco o menino. O AUTOR Para J. Alquimista que conhece e utiliza os segredos da Grande Obra. Indo eles pelo caminho, entraram em um certo povoado. E certa mulher, chamada Marta, hospedou-o na sua casa. Tinha ela uma irmÇ, chamada Maria, que sentou-se aos pÊs do Senhor, e ficou ouvindo seus ensinamentos. Marta agitava-se de um lado para o outro, ocupada em muitos serviÚos. EntÇo aproximou-se de Jesus e disse: ­ Senhor! NÇo te importas de que eu fique a servir sozinha? Ordena a minha irmÇ que venha ajudar-me! Respondeu-lhe o Senhor: ­ Marta! Marta! Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas. "Maria, entretanto, escolheu a melhor parte, e esta nÇo lhe ser tirada." LUCAS, 10; 38-42 PRõLOGO O Alquimista pegou um livro que alguÊm na caravana havia trazido. O volume estava sem capa, mas conseguiu identificar seu autor: Oscar Wilde. Enquanto folheava suas pÂginas, encontrou uma histÕria sobre Narciso. O Alquimista conhecia a lenda de Narciso, um belo rapaz que todos os dias ia contemplar sua prÕpria beleza num lago. Era tÇo fascinado por si mesmo que certo dia caiu dentro do lago e morreu afogado. No lugar onde caiu, nasceu uma flor, que chamaram de narciso. Mas nÇo era assim que Oscar Wilde acabava a histÕria. Ele dizia que quando Narciso morreu, vieram as OrÊiades ­ deusas do bosque ­ e viram o lago transformado, de um lago de Âgua doce, num c×ntaro de lÂgrimas salgadas. ­ Por que vocË chora? ­ perguntaram as OrÊiades. ­ Choro por Narciso ­ disse o lago ­ Ah, nÇo nos espanta que vocË chore por Narciso ­ continuaram elas. ­ Afinal de contas, apesar de todas nÕs sempre corrermos atrÂs dele pelo bosque, vocË era o ßnico que tinha a oportunidade de contemplar de perto sua beleza. ­ Mas Narciso era belo? ­ perguntou o lago. ­ Quem mais do que vocË poderia saber disso? ­ responderam, surpresas, as OrÊiades. ­ Afinal de contas, era em suas margens que ele se debruÚava todos os dias. O lago ficou algum tempo quieto. Por fim, disse: ­ Eu choro por Narciso, mas jamais havia percebido que Narciso era belo. "Choro por Narciso porque, todas as vezes que ele se deitava sobre minhas margens eu podia ver, no fundo dos seus olhos, minha prÕpria beleza refletida". "Que bela histÕria", disse o Alquimista. O rapaz chamava-se Santiago. Estava comeÚando a escurecer quando chegou com seu rebanho diante de uma velha igreja abandonada. O teto tinha despencado h muito tempo, e um enorme sicÆmoro havia crescido no local que antes abrigava a sacristia. Resolveu passar a noite ali. Fez com que todas as ovelhas entrassem pela porta em ruÎnas, e entÇo colocou algumas tÂbuas de modo que elas nÇo pudessem fugir durante a noite. NÇo haviam lobos naquela regiÇo, mas certa vez um animal havia escapado durante a noite, e ele gastara todo o dia seguinte procurando a ovelha desgarrada. Forrou o chÇo com seu casaco e deitou-se, usando o livro que acabara de ler como travesseiro. Lembrou-se, antes de dormir, que precisava comeÚar a ler livros mais grossos: demoravam mais para acabar e eram travesseiros mais confortÂveis durante a noite. Ainda estava escuro quando acordou. Olhou para cima, e viu que as estrelas brilhavam atravÊs do teto semidestruÎdo. "Queria dormir um pouco mais", pensou ele. Tivera o mesmo sonho da semana passada, e outra vez acordara antes do final. Levantou-se e tomou um gole de vinho. Depois pegou o cajado e comeÚou a acordar as ovelhas que ainda dormiam. Ele havia reparado que, assim que acordava, a maior parte dos animais tambÊm comeÚava a despertar. Como se houvesse alguma misteriosa energia unindo sua vida Á vida daquelas ovelhas que h dois anos percorriam com ele a terra, em busca de Âgua e alimento. "Elas j se acostumaram tanto a mim que conhecem meus horÂrios", disse em voz baixa. Refletiu um momento, e pensou que podia ser tambÊm o contrÂrio: ele que havia se acostumado ao horÂrio das ovelhas. Haviam certas ovelhas, porÊm, que demoravam um pouco mais para levantar. O rapaz acordou uma a uma com seu cajado, chamando cada qual pelo seu nome. Sempre acreditara que as ovelhas eram capazes de entender o que ele falava. Por isso costumava Ás vezes ler para elas os trechos de livros que o haviam impressionado, ou falar da solidÇo e da alegria de um pastor no campo, ou comentar sobre as ßltimas novidades que via nas cidades por onde costumava passar. Nos ßltimos dois dias, porÊm, seu assunto tinha sido praticamente um sÕ: a menina, filha do comerciante, que morava na cidade por onde ia chegar daqui a quatro dias. Tinha estado apenas uma vez lÂ, no ano anterior. O comerciante era dono de uma loja de tecidos, e gostava sempre de ver as ovelhas tosquiadas na sua frente, para evitar falsificaÚÈes. Um certo amigo tinha indicado a loja, e o pastor levou l suas ovelhas. "Preciso vender alguma lÇ", disse para o comerciante. A loja do homem estava cheia, e o comerciante pediu que o pastor esperasse atÊ o entardecer. Ele sentou-se na calÚada da loja e tirou um livro do alforje. ­ NÇo sabia que os pastores sÇo capazes de ler livros ­ disse uma voz feminina ao seu lado. Era uma moÚa tÎpica da regiÇo de Andaluzia, com seus cabelos negros escorridos, e os olhos que lembravam vagamente os antigos conquistadores mouros. ­ ê porque as ovelhas ensinam mais que os livros ­ respondeu o rapaz. Ficaram conversando por mais de duas horas. Ela contou que era filha do comerciante, e falou da vida na aldeia, onde cada dia era igual ao outro. O pastor contou dos campos de Andaluzia, das ßltimas novidades que viu nas cidades onde visitara. Estava contente por nÇo precisar conversar sempre com as ovelhas. ­ Como aprendeu a ler? ­ perguntou a moÚa a certa altura. ­ Como todas as outras pessoas ­ respondeu o rapaz. ­ Na escola. ­ E, se sabe ler, entÇo por que Ê apenas um pastor? O rapaz deu uma desculpa qualquer para nÇo responder aquela pergunta. Ele tinha certeza de que a moÚa jamais entenderia. Continuou a contar suas histÕrias de viagem, e os pequenos olhos mouros abriam-se e fechavam-se de espanto e surpresa. á medida que o tempo foi passando, o rapaz comeÚou a desejar que aquele dia nÇo acabasse nunca, que o pai da moÚa ficasse ocupado por muito tempo e o mandasse esperar por trËs dias. Percebeu que estava sentindo uma coisa que nunca havia sentido antes: vontade de ficar morando numa mesma cidade para sempre. Com a menina de cabelos negros, os dias nunca seriam iguais. Mas o comerciante finalmente chegou e mandou que ele tosquiasse quatro ovelhas. Depois, pagou-lhe o que era devido, e pediu que voltasse no ano seguinte. Agora faltavam apenas quatro dias para chegar de novo Á mesma aldeia. Estava excitado e ao mesmo tempo inseguro: talvez a menina j tivesse esquecido. Por ali passavam muitos pastores para vender lÇ. ­ NÇo tem import×ncia ­ disse o rapaz para as suas ovelhas. ­ Eu tambÊm conheÚo outras meninas em outras cidades. Mas no fundo do seu coraÚÇo, ele sabia que tinha import×ncia. E que tanto os pastores, como os marinheiros, como os caixeiro-viajantes, sempre conheciam uma cidade onde havia alguÊm capaz de fazer com que esquecessem a alegria de viajar solto pelo mundo. O dia comeÚou a raiar e o pastor colocou as ovelhas seguindo em direÚÇo ao sol. "Elas nunca precisam tomar uma decisÇo", pensou ele. "Talvez por isso fiquem sempre juntos de mim". A ßnica necessidade que as ovelhas sentiam era de Âgua e de alimento. Enquanto o rapaz conhecesse os melhores pastos em Andaluzia, elas seriam sempre suas amigas. Mesmo que os dias fossem todos iguais, com longas horas se arrastando entre o nascer e o pÆr-do-sol; mesmo que elas jamais tivessem lido um sÕ livro em suas curtas vidas, e nÇo conhecessem a lÎngua dos homens que contavam as novidades nas aldeias. Elas estavam contentes com Âgua e alimento, e isto bastava. Em troca, ofereciam generosamente sua lÇ, sua companhia, e ­ de vez em quando ­ sua carne. "Se hoje eu me tornasse um monstro e resolvesse matar uma por uma, elas sÕ iam perceber depois que quase todo o rebanho tivesse sido exterminado", pensou o rapaz. "Porque confiam em mim, e se esqueceram de confiar nos seus prÕprios instintos. SÕ porque as conduzo ao alimento e Á comida". O rapaz comeÚou a estranhar seus prÕprios pensamentos. Talvez a igreja, com aquele sicÆmoro crescendo dentro, fosse mal-assombrada. Tinha feito com que sonhasse um mesmo sonho pela segunda vez, e estava lhe dando uma sensaÚÇo de raiva contra suas companheiras, sempre tÇo fiÊis. Bebeu um pouco de vinho que havia sobrado do jantar na noite anterior, e apertou contra o corpo o seu casaco. Ele sabia que daqui a algumas horas, com o sol a pino, o calor seria tÇo forte que nÇo ia poder conduzir as ovelhas pelo campo. Era a hora que toda a Espanha dormia no verÇo. O calor durava atÊ a noite, e durante todo este tempo ele tinha que ficar carregando o casaco. Entretanto, quando pensava em reclamar do peso, sempre lembrava que por causa dele nÇo havia sentido frio de manhÇ. "Temos que estar sempre preparados para as surpresas do tempo", pensava entÇo ele, e sentia-se grato pelo peso do casaco. O casaco tinha um motivo, e o rapaz tambÊm. Em dois anos pelas planÎcies de Andaluzia ele j sabia de cor todas as cidades da regiÇo, e esta era a grande razÇo de sua vida; viajar. Estava planejando explicar desta vez Á menina porque um simples pastor sabe ler: havia estado atÊ os dezesseis anos num seminÂrio. Seus pais queriam que ele fosse padre, e motivo de orgulho para uma simples famÎlia camponesa, que trabalhava apenas para comida e Âgua, como suas ovelhas. Estudou latim, espanhol, e teologia. Mas desde crianÚa sonhava em conhecer o mundo, e isto era muito mais importante do que conhecer Deus ou os pecados dos homens. Certa tarde, ao visitar a famÎlia, havia tomado coragem e dito para seu pai que nÇo queria ser padre. Queria viajar. ­ Homens de todo o mundo j passaram por esta aldeia, filho ­ disse o pai. ­ VËm em busca de coisas novas, mas continuam as mesmas pessoas. VÇo atÊ o morro conhecer o castelo e acham que o passado era melhor que o presente. TËm cabelos louros ou pele escura, mas sÇo iguais aos homens de nossa aldeia. ­ Mas nÇo conheÚo os castelos das terras de onde eles vËm ­ retrucou o rapaz. ­ Estes homens, quando conhecem nossos campos e nossas mulheres, dizem que gostariam de viver para sempre aqui ­ continuou o pai. ­ Quero conhecer as mulheres e as terras de onde eles vieram ­ disse o rapaz. ­ Porque eles nunca ficam por aqui. ­ Os homens trazem a bolsa cheia de dinheiro ­ disse mais uma vez o pai. ­ Entre nÕs, sÕ os pastores viajam. ­ EntÇo serei pastor. O pai nÇo disse mais nada. No dia seguinte deu-lhe uma bolsa com trËs antigas moedas de ouro espanholas. ­ Achei certo dia no campo. Iam ser da Igreja, como seu dote. Compre seu rebanho e corra o mundo atÊ aprender que nosso castelo Ê o mais importante, e nossas mulheres sÇo as mais belas. E o abenÚoou. Nos olhos do pai ele leu tambÊm a vontade de correr o mundo. Uma vontade que ainda vivia, apesar das dezenas de anos que ele a tentou sepultar com Âgua, comida, e o mesmo lugar para dormir toda noite. O horizonte se tingiu de vermelho, e depois apareceu o sol. O rapaz lembrou-se da conversa com o pai e sentiu-se alegre; tinha j conhecido muitos castelos e muitas mulheres (mas nenhuma igual Áquela que o esperava em dois dias). Tinha um casaco, um livro que podia trocar por outro, e um rebanho de ovelhas. O mais importante, entretanto, Ê que todo dia realizava o grande sonho de sua vida; viajar. Quando cansasse dos campos de Andaluzia, podia vender suas ovelhas e tornar-se marinheiro. Quando cansasse do mar, teria conhecido muitas cidades, muitas mulheres, muitas oportunidades de ser feliz. "NÇo sei como buscam Deus no seminÂrio", pensou, enquanto olhava o sol que nascia. Sempre que possÎvel, buscava um caminho diferente para andar. Nunca havia estado naquela igreja antes, apesar de haver passado tantas vezes por ali. O mundo era grande e inesgotÂvel, e se ele deixasse que as ovelhas o guiassem apenas um pouquinho, ia terminar descobrindo mais coisas interessantes. "O problema Ê que elas nÇo se dÇo conta de que estÇo fazendo caminhos novos cada dia. NÇo percebem que os pastos mudaram, que as estaÚÈes sÇo diferentes ­ porque estÇo apenas ocupadas com Âgua e comida." "Talvez seja assim com todos nÕs" ­ pensou o pastor. "Mesmo comigo, que nÇo penso em outras mulheres desde que conheci a filha do comerciante". Olhou o cÊu, e pelos seus cÂlculos estaria antes do almoÚo em Tarifa. L poderia trocar seu livro por um volume mais grosso, encher a garrafa de vinho, e fazer a barba e o cabelo; tinha que estar pronto para encontrar a menina, e nÇo queria pensar na possibilidade de outro pastor ter chegado antes dele, com mais ovelhas, para pedir sua mÇo. "ê justamente a possibilidade de realizar um sonho que torna a vida interessante", refletiu enquanto olhava novamente o cÊu e apressava o passo. Tinha acabado de se lembrar que em Tarifa morava uma velha capaz de interpretar sonhos. E ele tinha tido um sonho repetido aquela noite. A velha conduziu o rapaz atÊ um quarto no fundo da casa, separado da sala por uma cortina feita de tiras de plÂstico colorido. L dentro tinha uma mesa, uma imagem do Sagrado CoraÚÇo de Jesus, e duas cadeiras. A velha sentou-se e pediu que ele fizesse o mesmo. Depois segurou as duas mÇos do rapaz e rezou baixo. Parecia uma reza cigana. O rapaz j havia encontrado muitos ciganos pelo caminho; eles viajavam e entretanto nÇo cuidavam de ovelhas. As pessoas diziam que a vida de um cigano era sempre enganar aos outros. Diziam tambÊm que eles tinham pacto com demÆnios, e que raptavam crianÚas para servirem de escravas em seus misteriosos acampamentos. Quando era pequeno, o rapaz sempre tinha morrido de medo de ser raptado pelos ciganos, e este temor antigo voltou enquanto a velha segurava suas mÇos. "Mas existe a imagem do Sagrado CoraÚÇo de Jesus", pensou ele, procurando ficar mais calmo. NÇo queria que sua mÇo comeÚasse a tremer e a velha percebesse seu medo . Rezou um pai-nosso em silËncio. ­ Que interessante ­ disse a velha, sem tirar os olhos da mÇo do rapaz. E voltou a ficar quieta. O rapaz estava ficando nervoso. Suas mÇos comeÚaram involuntariamente a tremer, e a velha percebeu. Ele puxou as mÇos rapidamente. ­ NÇo vim aqui para ler as mÇos ­ disse, j arrependido de ter entrado naquela casa. Pensou por um momento que era melhor pagar a consulta e ir-se embora sem saber de nada. Estava dando import×ncia demais a um sonho repetido. ­ VocË veio saber de sonhos ­ respondeu a velha. ­ E os sonhos sÇo a linguagem de Deus. Quando ele fala a linguagem do mundo, eu posso interpretar. Mas se ele falar a linguagem de sua alma, sÕ vocË pode entender. E vou cobrar a consulta de qualquer maneira. Mais um truque, pensou o rapaz. Entretanto, resolveu arriscar. Um pastor corre sempre o risco dos lobos ou da seca, e isto Ê que faz a profissÇo de pastor mais excitante. ­ Tive o mesmo sonho duas vezes seguidas ­ disse. ­ Sonhei que estava num pasto com minhas ovelhas quando aparecia uma crianÚa, e comeÚava a brincar com os animais. NÇo gosto que mexam nas minhas ovelhas, elas ficam com medo de estranhos. Mas as crianÚas sempre conseguem mexer com os animais sem que eles se assustem. NÇo sei porquË. NÇo sei como os animais sabem a idade dos seres humanos. ­ Volte para seu sonho ­ disse a velha. ­ Tenho uma panela no fogo. AlÊm disso vocË tem pouco dinheiro e nÇo pode tomar todo o meu tempo. ­ A crianÚa continuava a brincar com as ovelhas por algum tempo ­ continuou o rapaz, um pouco constrangido. ­ E de repente, me pegava pelas mÇos e me levava atÊ as Pir×mides do Egito. O rapaz esperou um pouco para ver se a velha sabia o que eram as Pir×mides do Egito. Mas a velha continuou quieta. ­ EntÇo, nas Pir×mides do Egito, ­ ele falou as trËs ßltimas palavras lentamente, para que a velha pudesse entender bem ­ a crianÚa me dizia: "se vocË vier atÊ aqui, vai encontrar um tesouro escondido". E quando ela foi me mostrar o local exato, eu acordei. Nas duas vezes. A velha continuou em silËncio por algum tempo. Depois tornou a pegar as mÇos do rapaz e estudÂ-las atentamente. ­ NÇo vou lhe cobrar nada agora ­ disse a velha. Mas quero um dÊcimo do tesouro, se vocË encontrÂ-lo. O rapaz riu. De felicidade. EntÇo iria economizar o pouco dinheiro que tinha, por causa de um sonho que falava em tesouros escondidos! A velha devia ser mesmo uma cigana ­ os ciganos sÇo burros. ­ EntÇo interprete o sonho ­ pediu o rapaz. ­ Antes jure. Jure que vocË vai me dar a dÊcima parte do seu tesouro em troca do que eu lhe disser. O rapaz jurou. A velha pediu para que ele repetisse o juramento olhando para a imagem do Sagrado CoraÚÇo de Jesus. ­ ê um sonho da Linguagem do Mundo ­ disse ela. ­ Posso interpretÂ-lo, e Ê uma interpretaÚÇo muito difÎcil. Por isso acho que mereÚo minha parte no seu achado. "E a interpretaÚÇo Ê esta: vocË deve ir atÊ as Pir×mides do Egito. Nunca ouvi falar delas, mas se foi uma crianÚa que lhe mostrou, Ê porque existem. L vocË encontrar um tesouro que lhe far rico". O rapaz ficou surpreso, e depois irritado. NÇo precisava ter procurado a velha para isto. Finalmente lembrou-se de que nÇo estava pagando nada. ­ Para isto eu nÇo precisava perder meu tempo ­ disse. ­ Por isso lhe falei que seu sonho era difÎcil. As coisas simples sÇo as mais extraordinÂrias, e sÕ os sÂbios conseguem vË-las. J que nÇo sou uma sÂbia, tenho que conhecer outras artes, como a leitura de mÇos. ­ E como eu vou chegar atÊ o Egito? ­ Eu sÕ interpreto sonhos. NÇo sei transformÂ-los em realidade. Por isso tenho que viver do que minhas filhas me dÇo. ­ E se eu nÇo chegar atÊ o Egito? ­ Eu fico sem pagamento. NÇo ser a primeira vez. E a velha nÇo disse mais nada. Pediu para que o rapaz saÎsse, pois j tinha perdido muito tempo com ele. O rapaz saiu decepcionado e decidido a nunca mais acreditar em sonhos. Lembrou-se de que tinha vÂrias providËncias a tomar: foi ao armazÊm arranjar alguma comida, trocou seu livro por um livro mais grosso, e sentou-se num banco da praÚa para saborear o vinho novo que havia comprado. Era um dia quente, e o vinho, por um destes mistÊrios insondÂveis, conseguia resfriar um pouco seu corpo. As ovelhas estavam na entrada da cidade, no estÂbulo de um novo amigo seu. Conhecia muita gente por aquelas bandas ­ e por isso gostava de viajar. A gente sempre acaba fazendo amigos novos, e nÇo precisa ficar com eles dia apÕs dia. Quando a gente vË sempre as mesmas pessoas ­ e isto acontecia no seminÂrio ­ terminamos fazendo com que elas passem a fazer parte de nossas vidas. E como elas fazem parte de nossas vidas, passam tambÊm a querer modificar nossas vidas. Se a gente nÇo for como elas esperam ficar, chateadas. Porque todas as pessoas tem a noÚÇo exata de como devemos viver nossa vida. E nunca tËm noÚÇo de como devem viver as suas prÕprias vidas. Como a mulher dos sonhos, que nÇo sabia transformÂ-los em realidade. Resolveu esperar o sol descer um pouco, antes de seguir com suas ovelhas em direÚÇo ao campo. Daqui a trËs dias iria estar com a filha do comerciante. ComeÚou a ler o livro que tinha conseguido com o padre de Tarifa. Era um livro grosso, que falava de um enterro logo na primeira pÂgina. AlÊm disso, o nome dos personagens eram complicadÎssimos. Se algum dia escrevesse um livro, pensou ele, ia colocar um personagem aparecendo de cada vez, para que os leitores nÇo tivessem que ficar decorando nomes. Quando conseguiu concentrar-se um pouco na leitura, ­ e era boa, porque falava de um enterro na neve, o que lhe transmitia uma sensaÚÇo de frio debaixo daquele imenso sol ­ um velho sentou-se ao seu lado e comeÚou a puxar conversa. ­ O que eles estÇo fazendo? ­ perguntou o velho, apontando para as pessoas da praÚa. ­ Trabalhando ­ respondeu o rapaz, secamente, e voltou a fingir que estava concentrado na leitura. Na verdade, estava pensando em tosquiar as ovelhas na frente da filha do comerciante, para ela atestar como ele era capaz de fazer coisas interessantes. J havia imaginado esta cena uma porÚÇo de vezes; em todas elas, a menina ficava deslumbrada quando ele comeÚava a lhe explicar que as ovelhas devem ser tosquiadas de trÂs para frente. TambÊm tentava se lembrar de algumas boas histÕrias para contar a ela enquanto tosquiava as ovelhas. A maior parte ele tinha lido nos livros, mas iria contar como se tivesse vivido pessoalmente. Ela nunca ia saber a diferenÚa, porque nÇo sabia ler livros. O velho, entretanto, insistiu. Falou que estava cansado, com sede, e pediu um gole de vinho ao rapaz. O rapaz ofereceu sua garrafa; talvez o velho ficasse quieto. Mas o velho queria conversar de qualquer maneira. Perguntou que livro o rapaz estava lendo. Ele pensou em ser rude e mudar de banco, mas seu pai havia lhe ensinado o respeito pelos mais velhos. EntÇo estendeu o livro para o velho, por duas razÈes: a primeira Ê que nÇo sabia pronunciar o tÎtulo. E a segunda era que, se o velho nÇo soubesse ler, ia ele mesmo mudar de banco para nÇo sentir-se humilhado. ­ Humm... ­ disse o velho, olhando o volume por todos os lados, como se fosse um objeto estranho. ­ ê um livro importante, mas Ê muito chato. O rapaz ficou surpreso. O velho tambÊm lia, e j lera aquele livro. E se o livro era chato como ele dizia, ainda dava tempo de trocar por outro. ­ ê um livro que fala o que quase todos os livros falam ­ continuou o velho. ­ Da incapacidade que as pessoas tËm de escolher seu prÕprio destino. E termina fazendo com que todo mundo acredite na maior mentira do mundo. ­ Qual Ê a maior mentira do mundo? ­ indagou surpreso o rapaz. ­ ê esta: em determinado momento de nossa existËncia, perdemos o controle de nossas vidas, e ela passa a ser governada pelo destino. Esta Ê a maior mentira do mundo. ­ Comigo nÇo aconteceu isto ­ disse o rapaz. ­ Queriam que eu fosse padre, e eu resolvi ser pastor. ­ Assim Ê melhor ­ disse o velho. ­ Porque vocË gosta de viajar. "Ele adivinhou meu pensamento", refletiu o rapaz. O velho, entretanto, folheava o livro grosso, sem a menor intenÚÇo de devolvË-lo. O rapaz notou que ele vestia uma roupa estranha; parecia um Ârabe, o que nÇo era raro naquela regiÇo. A âfrica ficava a apenas algumas horas da Tarifa; e era sÕ cruzar o pequeno estreito num barco. Muitas vezes apareciam Ârabes na cidade, fazendo compras e rezando oraÚÈes estranhas vÂrias vezes por dia. ­ De onde Ê o senhor? ­ perguntou. ­ De muitas partes. ­ NinguÊm pode ser de muitas partes ­ o rapaz falou. ­ Eu sou um pastor e estou em muitas partes, mas sou de um ßnico lugar, de uma cidade perto de um castelo antigo. Ali foi onde nasci. ­ EntÇo podemos dizer que eu nasci em SalÊm. ­ O rapaz nÇo sabia onde era SalÊm, mas nÇo quis perguntar para nÇo sentir- se humilhado com a prÕpria ignor×ncia. Ficou mais algum tempo olhando a praÚa. As pessoas iam e vinham, e pareciam muito ocupadas. ­ Como est SalÊm? ­ perguntou o rapaz, procurando alguma pista. ­ Como sempre esteve. Ainda nÇo era uma pista. Mas sabia que SalÊm nÇo estava em Andaluzia. SenÇo, ele j a teria conhecido. ­ E o que vocË faz em SalÊm? ­ insistiu. ­ O que faÚo em SalÊm? ­ o velho pela primeira vez deu uma gostosa gargalhada. ­ Ora, eu sou o Rei de SalÊm! As pessoas dizem coisas muito estranhas, pensou o rapaz. ás vezes Ê melhor estar com as ovelhas, que sÇo caladas, e apenas procuram alimento e Âgua. Ou Ê melhor estar com os livros, que contam estÕrias incrÎveis sempre nas horas que a gente quer ouvir. Mas quando a gente fala com pessoas, elas dizem certas coisas e ficamos sem saber como continuar a conversa. ­ Meu nome Ê Melquisedec ­ disse o velho. ­ Quantas ovelhas vocË tem? ­ O suficiente ­ respondeu o rapaz. O velho estava querendo saber demais sobre sua vida. ­ EntÇo estamos diante de um problema. NÇo posso ajudÂ-lo enquanto vocË achar que tem ovelhas suficientes. O rapaz se irritou. NÇo estava pedindo ajuda. O velho Ê que tinha pedido vinho, conversa, e livro. ­ Me devolva o livro ­ disse. ­ Tenho que ir buscar minhas ovelhas e seguir adiante. ­ Me dË um dÊcimo de suas ovelhas ­ disse o velho. ­ E eu lhe ensino como chegar atÊ o tesouro escondido. O rapaz tornou entÇo a lembrar-se do sonho, e de repente tudo ficou claro. A velha nÇo tinha cobrado nada, mas o velho ­ que era talvez seu marido ­ ia conseguir arrancar muito mais dinheiro em troca de uma informaÚÇo que nÇo existia. O velho devia ser cigano tambÊm. Antes que o rapaz dissesse qualquer coisa, porÊm, o velho abaixou-se, pegou um graveto, e comeÚou a escrever na areia da praÚa. Quando ele se abaixou, alguma coisa brilhou dentro do seu peito, com tanta intensidade que quase cegou o rapaz. Mas num movimento rÂpido demais para alguÊm de sua idade, tornou a cobrir o brilho com o manto. Os olhos do rapaz voltaram ao normal e ele pode enxergar o que o velho estava escrevendo. Na areia da praÚa principal da pequena cidade, ele leu o nome do seu pai e de sua mÇe. Leu a histÕria de sua vida atÊ aquele momento, as brincadeiras de inf×ncia, as noites frias do seminÂrio. Leu o nome da filha do comerciante, que nÇo sabia. Leu coisas que jamais contara para alguÊm, como o dia em que roubou a arma do seu pai para matar veados, ou sua primeira e solitÂria experiËncia sexual. "Sou o Rei de SalÊm", dissera o velho. ­ Por que um rei conversa com um pastor? ­ perguntou o rapaz, envergonhado e admiradÎssimo. ­ Existem vÂrias razÈes. Mas vamos dizer que a mais importante Ê que vocË tem sido capaz de cumprir sua Lenda Pessoal. O rapaz nÇo sabia o que era Lenda Pessoal. ­ ê aquilo que vocË sempre desejou fazer. Todas as pessoas, no comeÚo da juventude, sabem qual Ê sua Lenda Pessoal. "Nesta altura da vida, tudo Ê claro, tudo Ê possÎvel, e elas nÇo tËm medo de sonhar e desejar tudo aquilo que gostariam de ver fazer em suas vidas. Entretanto, Á medida em que o tempo vai passando, uma misteriosa forÚa comeÚa a tentar provar que Ê impossÎvel realizar a Lenda Pessoal. O que o velho estava dizendo nÇo fazia muito sentido para o rapaz. Mas ele queria saber o que eram "forÚas misteriosas"; a filha do comerciante ia ficar boquiaberta com isto. ­ SÇo as forÚas que parecem ruins, mas na verdade estÇo ensinando a vocË como realizar sua Lenda Pessoal. EstÇo preparando seu espÎrito e sua vontade, porque existe uma grande verdade neste planeta: seja vocË quem for ou o que faÚa, quando quer com vontade alguma coisa, Ê porque este desejo nasceu na alma do Universo. ê sua missÇo na Terra. ­ Mesmo que seja apenas viajar? Ou casar com a filha de um comerciante de tecidos? ­ Ou buscar um tesouro. A Alma do Mundo Ê alimentada pela felicidade das pessoas. Ou pela infelicidade, inveja, cißme. Cumprir sua Lenda Pessoal Ê a ßnica obrigaÚÇo dos homens. Tudo Ê uma coisa sÕ. "E quando vocË quer alguma coisa, todo o Universo conspira para que vocË realize seu desejo". Durante algum tempo ficaram em silËncio, olhando a praÚa e as pessoas. Foi o velho quem falou primeiro. ­ Por que vocË cuida de ovelhas? ­ Porque gosto de viajar. Ele apontou um pipoqueiro, com sua carrocinha vermelha, que estava num canto da praÚa. ­ Aquele pipoqueiro tambÊm sempre desejou viajar, quando crianÚa. Mas preferiu comprar uma carrocinha de pipoca, juntar dinheiro durante anos. Quando estiver velho, vai passar um mËs na âfrica. Jamais entendeu que a gente sempre tem condiÚÈes para fazer o que sonha. ­ Devia ter escolhido ser um pastor ­ pensou em voz alta o rapaz. ­ Ele pensou nisto ­ disse o velho. ­ Mas os pipoqueiros sÇo mais importantes que os pastores. Os pipoqueiros tËm uma casa, enquanto os pastores dormem ao relento. As pessoas preferem casar suas filhas com pipoqueiros do que com pastores. O rapaz sentiu uma pontada no coraÚÇo, pensando na filha do comerciante. Em sua cidade devia haver um pipoqueiro. ­ Enfim, o que as pessoas pensam sobre pipoqueiros e sobre pastores passa a ser mais importante para elas que a Lenda Pessoal. O velho folheou o livro, e distraiu-se lendo uma pÂgina. O rapaz esperou um pouco, e o interrompeu da mesma maneira como ele o havia interrompido. ­ Por que vocË fala estas coisas comigo? ­ Porque vocË tenta viver sua Lenda Pessoal. E est a ponto de desistir dela. ­ E vocË aparece sempre nestas horas? ­ Nem sempre desta forma, mas jamais deixei de aparecer. ás vezes apareÚo sob a forma de uma boa saÎda, uma boa idÊia. Outras vezes, num momento crucial, faÚo as coisas ficarem mais fÂceis. E assim por diante; mas a maior parte das pessoas nÇo nota isto. O velho contou que na semana passada ele tinha sido forÚado a aparecer para um garimpeiro sob a forma de uma pedra. O garimpeiro tinha largado tudo para ir em busca de esmeraldas. Durante cinco anos trabalhou num rio, e tinha quebrado 999.999 pedras em busca de uma esmeralda. Neste ponto o garimpeiro pensou em desistir, e sÕ faltava uma pedra ­ apenas UMA PEDRA ­ para ele descobrir sua esmeralda. Como ele tinha sido um homem que havia apostado em sua Lenda Pessoal, o velho resolveu interferir. Transformou-se numa pedra que rolou sobre o pÊ do garimpeiro. Este, com a raiva e frustraÚÇo dos cinco anos perdidos, atirou a pedra longe. Mas atirou com tanta forÚa que ela bateu em outra pedra e esta se quebrou, mostrando a mais bela esmeralda do mundo. ­ As pessoas aprendem muito cedo sua razÇo de viver ­ disse o velho com uma certa amargura nos olhos. ­ Talvez seja por isso que elas desistem tÇo cedo tambÊm. Mas assim Ê o mundo. EntÇo o rapaz se lembrou que a conversa havia comeÚado com o tesouro escondido. ­ Os tesouros sÇo levantados da terra pela torrente de Âgua, e enterrados por estas mesmas enchentes ­ disse o velho. ­ Se vocË quiser saber sobre seu tesouro, ter que me ceder um dÊcimo de suas ovelhas. ­ E nÇo serve um dÊcimo do tesouro? O velho ficou decepcionado. ­ Se vocË sair prometendo o que ainda nÇo tem, vai perder sua vontade de consegui-lo. O rapaz entÇo contou que tinha prometido um dÊcimo Á cigana. ­ Os ciganos sÇo espertos ­ suspirou o velho. ­ De qualquer maneira Ê bom vocË aprender que tudo na vida tem um preÚo. ê isto que os Guerreiros da Luz tentam ensinar. O velho devolveu o livro ao rapaz. ­ AmanhÇ, nesta mesma hora, vocË me traz um dÊcimo de suas ovelhas. Eu lhe ensinarei como conseguir o tesouro escondido. Boa tarde. E sumiu numa das esquinas da praÚa. O rapaz tentou ler o livro, mas nÇo conseguiu concentrar-se mais. Estava agitado e tenso, porque sabia que o velho falava a verdade. Foi atÊ o pipoqueiro, comprou um saco de pipocas, enquanto pensava se devia ou nÇo contar a ele o que o velho dissera. "ás vezes Ê melhor deixar as coisas como estÇo", pensou o rapaz, e ficou quieto. Se dissesse algo, o pipoqueiro ia ficar trËs dias pensando em largar tudo, mas estava muito acostumado com sua carrocinha. Ele podia evitar este sofrimento ao pipoqueiro. ComeÚou a andar sem rumo pela cidade, e foi atÊ o porto. Havia um pequeno prÊdio, e no prÊdio havia uma janelinha onde as pessoas compravam passagens. O Egito estava na âfrica. ­ Quer alguma coisa? ­ perguntou o sujeito no guichË. ­ Talvez amanhÇ ­ disse o rapaz se afastando. Se vendesse apenas uma ovelha podia chegar atÊ o outro lado do estreito. Era uma idÊia que o apavorava. ­ Mais um sonhador ­ disse o sujeito do guichË ao seu assistente, enquanto o rapaz se afastava. ­ NÇo tem dinheiro para viajar. Quando estava no guichË, o rapaz havia se lembrado de suas ovelhas, e sentiu medo de voltar para junto delas. Dois anos haviam passado aprendendo tudo sobre a arte do pastoreio; sabia tosquiar, cuidar das ovelhas grÂvidas, proteger os animais contra os lobos. Conhecia todos os campos e pastos de Andaluzia. Conhecia o preÚo justo de comprar e vender cada um dos seus animais. Resolveu voltar atÊ o estÂbulo de seu amigo pelo caminho mais longo. A cidade tambÊm tinha um castelo, e ele resolveu subir a rampa de pedra e sentar-se numa de suas muradas. L de cima ele podia ver a âfrica. AlguÊm certa vez havia lhe explicado que por ali chegaram os mouros, que ocuparam durante tantos anos quase toda a Espanha. O rapaz detestava os mouros. Eles Ê que tinham trazido os ciganos. De l podia ver tambÊm quase toda a cidade, inclusive a praÚa onde havia conversado com o velho. "Maldita hora em que encontrei este velho", pensou ele. Tinha ido apenas buscar uma mulher que interpretasse sonhos. Nem a mulher nem o velho davam qualquer import×ncia para o fato de que ele era um pastor. Eram pessoas solitÂrias, que j nÇo acreditavam mais na vida, e nÇo entendiam que os pastores terminam apegados Ás suas ovelhas. Ele conhecia em detalhes cada uma delas: sabia qual mancava, qual iria dar cria daqui a dois meses, e quais eram as mais preguiÚosas. Sabia tambÊm como tosquiÂ-las, e como matÂ-las. Se resolvesse partir, elas sofreriam. Um vento comeÚou a soprar. Ele conhecia aquele vento: as pessoas o chamavam de Levante, porque com este vento chegaram tambÊm as hordas de infiÊis. AtÊ conhecer Tarifa, nunca havia pensado que a âfrica estava tÇo perto. Isto era um grande perigo: os mouros poderiam invadir novamente. O Levante comeÚou a soprar mais forte. "Estou entre as ovelhas e o tesouro", pensava o rapaz. Tinha que decidir-se entre alguma coisa que havia se acostumado e alguma coisa que gostaria de ter. Havia tambÊm a filha do comerciante, mas ela nÇo era tÇo importante como as ovelhas, porque nÇo dependia dele. Talvez sequer se lembrasse dele. Teve certeza de que, se nÇo aparecesse daqui a dois dias, a menina nÇo iria notar: para ela todos os dias eram iguais, e quando todos os dias ficam iguais, Ê porque as pessoas deixaram de perceber as coisas boas que aparecem em suas vidas sempre que o sol cruza o cÊu. "Eu larguei meu pai, minha mÇe, e o castelo da minha cidade. Eles se acostumaram e eu me acostumei. As ovelhas tambÊm vÇo se acostumar com a minha falta", pensou o rapaz. De l de cima ele olhou a praÚa. O pipoqueiro continuava vendendo suas pipocas. Um jovem casal sentou-se no banco onde ele havia conversado com o velho, e deram um longo beijo. "O pipoqueiro", disse para si mesmo, sem completar a frase. Porque o Levante havia comeÚado a soprar com mais forÚa, e ele ficou sentindo o vento no rosto. Ele trazia os mouros, Ê verdade, mas tambÊm trazia o cheiro do deserto e das mulheres cobertas com vÊu. Trazia o suor e os sonhos dos homens que um dia haviam partido em busca do desconhecido, de ouro, de aventuras ­ e de pir×mides. O rapaz comeÚou a invejar a liberdade do vento, e percebeu que poderia ser como ele. Nada o impedia, exceto ele prÕprio. As ovelhas, a filha do comerciante, os campos de Andaluzia, eram apenas os passos de sua Lenda Pessoal. No dia seguinte o rapaz encontrou-se com o velho ao meio-dia. Trazia seis ovelhas consigo. ­ Estou surpreso ­ disse ele. ­ Meu amigo comprou imediatamente as ovelhas. Disse que a vida inteira havia sonhado em ser pastor, e aquilo era um bom sinal. ­ ê sempre assim ­ disse o velho. ­ Chamamos de PrincÎpio FavorÂvel. Se vocË for jogar baralho pela primeira vez, com quase toda certeza ir ganhar. Sorte de principiante. ­ E por que? ­ Porque a vida quer que vocË viva sua Lenda Pessoal. Depois comeÚou a examinar as seis ovelhas, e descobriu que uma mancava. O rapaz explicou que isto nÇo tinha import×ncia, porque ela era a mais inteligente, e produzia bastante lÇ. ­ Onde est o tesouro? ­ perguntou. ­ O tesouro est no Egito, perto das Pir×mides. O rapaz levou um susto. A velha tinha dito a mesma coisa, mas nÇo tinha cobrado nada. ­ Para chegar atÊ ele, vocË ter que seguir os sinais. Deus escreveu no mundo o caminho que cada homem deve seguir. ê sÕ ler o que ele escreveu para vocË. Antes que o rapaz dissesse alguma coisa, uma mariposa comeÚou a esvoaÚar entre ele e o velho. Lembrou-se de seu avÆ; quando ele era crianÚa, seu avÆ lhe dissera que as mariposas eram sinal de boa sorte. Como os grilos, as esperanÚas, as lagartixas, e os trevos de quatro folhas. ­ Isto ­ disse o velho, que era capaz de ler seus pensamentos. ­ Exatamente como seu avÆ lhe ensinou. Estes sÇo os sinais. Depois o velho abriu o manto que lhe cobria o peito. O rapaz ficou impressionado com o que viu, e lembrou-se do brilho que havia notado no dia anterior. O velho tinha um peitoral de ouro maciÚo, coberto de pedras preciosas. Era realmente um rei. Devia estar disfarÚado assim para fugir dos salteadores. ­ Tome ­ disse o velho, tirando uma pedra branca e uma pedra negra que estavam presas no centro do peitoral de ouro. ­ Chamam-se Urim e Tumim. A preta quer dizer "sim", a branca quer dizer "nÇo". Quando vocË nÇo conseguir enxergar os sinais, elas servem. FaÚa sempre uma pergunta objetiva. "Mas de uma maneira geral, procure tomar suas decisÈes. O tesouro est nas Pir×mides e isto vocË j sabia; mas teve que pagar seis ovelhas porque eu lhe ajudei a tomar uma decisÇo". O rapaz guardou as pedras no alforje . Daqui por diante, tomaria suas prÕprias decisÈes. ­ NÇo se esqueÚa de que tudo Ê uma coisa sÕ. NÇo se esqueÚa da linguagem dos sinais. E, sobretudo, nÇo se esqueÚa de ir atÊ o fim de sua Lenda Pessoal. "Antes, porÊm, gostaria de contar-lhe uma pequena histÕria. "Certo mercador enviou seu filho para aprender o Segredo da Felicidade com o mais sÂbio de todos os homens. O rapaz andou durante quarenta dias pelo deserto, atÊ chegar a um belo castelo, no alto de uma montanha. L vivia o SÂbio que o rapaz buscava. "Ao invÊs de encontrar um homem santo, porÊm, o nosso herÕi entrou numa sala e viu uma atividade imensa; mercadores entravam e saÎam, pessoas conversavam pelos cantos, uma pequena orquestra tocava melodias suaves, e havia uma farta mesa com os mais deliciosos pratos daquela regiÇo do mundo. O SÂbio conversava com todos, e o rapaz teve que esperar duas horas atÊ chegar sua vez de ser atendido. "O SÂbio ouviu atentamente o motivo da visita do rapaz, mas disse-lhe que naquele momento nÇo tinha tempo de explicar-lhe o Segredo da Felicidade. Sugeriu que o rapaz desse um passeio por seu palÂcio, e voltasse daqui a duas horas. "­ Entretanto, quero lhe pedir um favor ­ completou o SÂbio, entregando ao rapaz uma colher de chÂ, onde pingou duas gotas de Õleo. ­ Enquanto vocË estiver caminhando, carregue esta colher sem deixar que o Õleo seja derramado. "O rapaz comeÚou a subir e descer as escadarias do palÂcio, mantendo sempre os olhos fixos na colher. Ao final de duas horas, retornou Á presenÚa do SÂbio. "­ EntÇo ­ perguntou o SÂbio ­ vocË viu as tapeÚarias da PÊrsia que estÇo na minha sala de jantar? Viu o jardim que o Mestre dos Jardineiros demorou dez anos para criar? Reparou nos belos pergaminhos de minha biblioteca? "O rapaz, envergonhado, confessou que nÇo havia visto nada. Sua ßnica preocupaÚÇo era nÇo derramar as gotas de Õleo que o SÂbio lhe havia confiado. "­ Pois entÇo volte e conheÚa as maravilhas do meu mundo ­ disse o SÂbio. ­ VocË nÇo pode confiar num homem se nÇo conhece sua casa. "J mais tranqØilo, o rapaz pegou a colher e voltou a passear pelo palÂcio, desta vez reparando em todas as obras de arte que pendiam do teto e das paredes. Viu os jardins, as montanhas ao redor, a delicadeza das flores, o requinte com que cada obra de arte estava colocada em seu lugar. De volta Á presenÚa do SÂbio, relatou pormenorizadamente tudo que havia visto. "­ Mas onde estÇo as duas gotas de Õleo que lhe confiei? ­ perguntou o SÂbio. "Olhando para a colher, o rapaz percebeu que as havia derramado. "­ Pois este Ê o ßnico conselho que eu tenho para lhe dar ­ disse o mais SÂbio dos SÂbios. ­ O segredo da felicidade est em olhar todas as maravilhas do mundo, e nunca se esquecer das duas gotas de Õleo na colher". O rapaz ficou em silËncio. Havia compreendido a histÕria do velho rei. Um pastor gosta de viajar, mas jamais esquece suas ovelhas. O velho olhou para o rapaz, e com as duas mÇos espalmadas fez alguns gestos estranhos em sua cabeÚa. Depois, pegou os animais e seguiu seu caminho. No alto da pequena cidade de Tarifa existe um velho forte construÎdo pelos mouros, e quem senta em suas muralhas consegue enxergar uma praÚa, um pipoqueiro, e um pedaÚo da âfrica. Melquisedec, o Rei de SalÊm, sentou-se na murada do forte aquela tarde, e sentiu o vento Levante no rosto. As ovelhas esperneavam ao seu lado, com medo do novo dono, e excitadas com tantas mudanÚas. Tudo que elas queriam era apenas comida e Âgua. Melquisedec olhou o pequeno navio que estava zarpando do porto. Nunca mais tornaria a ver o rapaz, da mesma maneira como jamais tornou a ver AbraÇo, depois de lhe ter cobrado o dÎzimo. Entretanto, esta era a sua obra. Os deuses nÇo devem ter desejos, porque os deuses nÇo tËm Lenda Pessoal. Entretanto, o Rei de SalÊm torceu intimamente para que o rapaz tivesse Ëxito. "Pena que ele vai esquecer logo meu nome", pensou. "Devia ter repetido mais de uma vez. Assim, quando falasse a meu respeito, diria que sou Melquisedec, o Rei de SalÊm." Depois olhou para o cÊu meio arrependido: "sei que Ê vaidade das vaidades, como Tu disseste, Senhor. Mas um velho rei Ás vezes tem que sentir orgulho de si mesmo". "Como Ê estranha a âfrica", pensou o rapaz. Estava sentado numa espÊcie de bar igual a outros bares que ele havia encontrado nas ruelas estreitas da cidade. Algumas pessoas fumavam um cachimbo gigante, que era passado de boca em boca. Em poucas horas havia visto homens de mÇos dadas, mulheres com o rosto coberto, e sacerdotes que subiam em longas torres e comeÚavam a cantar ­ enquanto todos Á sua volta se ajoelhavam e batiam com a cabeÚa no solo. "Coisa de infiÊis", disse para si mesmo. Quando crianÚa, via sempre na igreja da sua aldeia uma imagem de SÇo Santiago Matamouros em seu cavalo branco, com a espada desembainhada, e figuras como aquelas debaixo de seus pÊs. O rapaz sentia-se mal e terrivelmente sÕ. Os infiÊis tinham um olhar sinistro. AlÊm disso, na pressa de viajar, ele havia se esquecido de um detalhe, um ßnico detalhe, que podia afastÂ-lo do seu tesouro por muito tempo: naquele paÎs todos falavam Ârabe. O dono do bar se aproximou e o rapaz apontou para uma bebida que tinha sido servida em outra mesa. Era um ch amargo. O rapaz preferia beber vinho. Mas nÇo devia preocupar-se com isto agora. Tinha que pensar apenas no seu tesouro, e a maneira de consegui-lo. A venda das ovelhas lhe havia deixado com bastante dinheiro no bolso, e o rapaz sabia que o dinheiro era mÂgico: com ele ninguÊm jamais est sozinho. Daqui a pouco, talvez em alguns dias, estaria junto das Pir×mides. Um velho, com todo aquele ouro no peito, nÇo precisava mentir para ganhar seis ovelhas. O velho lhe havia falado de sinais. Enquanto atravessava o mar, ele havia pensado nos sinais. Sim, sabia do que ele estava falando: durante o tempo em que estivera nos campos de Andaluzia, havia se acostumado a ler na terra e nos cÊus as condiÚÈes do caminho que devia seguir. Aprendera que certo pÂssaro indicava uma cobra por perto, e que determinado arbusto era sinal de Âgua daqui a alguns quilÆmetros. As ovelhas lhe haviam ensinado isto. "Se Deus conduz tÇo bem as ovelhas, tambÊm conduzir o homem", refletiu, e ficou mais tranqØilo. O ch parecia menos amargo. ­ Quem Ê vocË? ­ ouviu uma voz em espanhol. O rapaz ficou imensamente aliviado. Estava pensando em sinais e alguÊm tinha aparecido. ­ Como vocË fala espanhol? ­ perguntou. O recÊm-chegado era um rapaz vestido Á maneira dos ocidentais, mas a cor de sua pele indicava que devia ser daquela cidade. Tinha mais ou menos sua altura e sua idade. ­ Quase todo mundo aqui fala espanhol. Estamos h apenas duas horas da Espanha. ­ Sente-se e peÚa alguma coisa por minha conta ­ disse o rapaz. ­ E peÚa um vinho para mim. Detesto este chÂ. ­ NÇo h vinho no paÎs ­ disse o recÊm-chegado. ­ A religiÇo nÇo permite. O rapaz disse entÇo que precisava chegar atÊ as Pir×mides. Quase ia falando do tesouro, mas resolveu ficar calado. SenÇo era bem capaz do Ârabe querer uma parte para levÂ-lo atÊ lÂ. Lembrou-se do que o velho lhe dissera a respeito de ofertas. ­ Gostaria que me levasse atÊ lÂ, se puder. Posso lhe pagar como guia. ­ VocË tem idÊia de como chegar atÊ lÂ? O rapaz reparou que o dono do bar estava por perto, ouvindo atentamente a conversa. Sentia-se incomodado com a presenÚa dele. Mas tinha encontrado um guia, e nÇo ia perder esta oportunidade. ­ VocË tem que atravessar todo o deserto de Saara ­ disse o recÊm-chegado. ­ E para isto precisamos de dinheiro. Quero saber se vocË tem dinheiro suficiente. O rapaz achou estranha a pergunta. Mas confiava no velho, e o velho lhe falara que quando se quer uma coisa, o universo sempre conspira a favor. Tirou seu dinheiro do bolso e mostrou ao recÊm-chegado. O dono do bar aproximou-se e olhou tambÊm. Os dois trocaram algumas palavras em Ârabe. O dono do bar parecia irritado. ­ Vamos embora ­ disse o recÊm-chegado. ­ Ele nÇo quer que continuemos aqui. O rapaz ficou aliviado. Levantou-se para pagar a conta, mas o dono o agarrou e comeÚou a falar sem parar. O rapaz era forte, mas estava numa terra estrangeira. Foi seu novo amigo que empurrou o dono para o lado e puxou o rapaz para fora. ­ Ele queria seu dinheiro ­ disse. ­ T×nger nÇo Ê igual ao resto da âfrica. Estamos num porto e os portos tËm sempre muito ladrÈes. Ele podia confiar em seu novo amigo. Tinha lhe ajudado numa situaÚÇo crÎtica. Tirou o dinheiro do bolso e contou. ­ Podemos chegar amanhÇ nas Pir×mides ­ disse o outro, pegando o dinheiro. ­ Mas preciso comprar dois camelos. SaÎram andando pelas ruas estreitas de T×nger. Em todo canto haviam barracas de coisas para vender. Chegaram enfim no meio de uma grande praÚa, onde funcionava o mercado. Haviam milhares de pessoas discutindo, vendendo, comprando, hortaliÚas misturadas com adagas, tapetes junto com todo tipo de cachimbos. Mas o rapaz nÇo tirava o olho de seu novo amigo. Afinal de contas, ele estava com todo o seu dinheiro nas mÇos. Pensou em pedi-lo de volta, mas achou que seria indelicado. Ele nÇo conhecia o costume das terras estranhas que estava pisando. "Basta vigiÂ-lo", disse para si mesmo. Era mais forte que o outro. De repente, no meio de toda aquela confusÇo, estava a mais bela espada que seus olhos j haviam visto. A bainha era prateada, e o cabo negro, cravejado de pedras. O rapaz prometeu a si mesmo que, quando voltasse do Egito, ia comprar aquela espada. ­ Pergunte ao dono da barraca quanto custa ­ disse ele ao amigo. Mas percebeu que tinha ficado dois segundos distraÎdo, olhando a espada. Seu coraÚÇo ficou pequeno, como se o peito tivesse subitamente encolhido. Teve medo de olhar para o lado, porque sabia o que ia encontrar. Os olhos continuaram fixos na bela espada por mais alguns momentos, atÊ que o rapaz tomou coragem e se virou. Em volta dele o mercado, as pessoas indo e vindo, gritando e comprando, os tapetes misturados com avelÇs, as alfaces junto Ás bandejas de cobre, os homens de mÇos dadas pelas ruas, as mulheres de vÊu, o cheiro de comida estranha, e em nenhum lugar, mas em nenhum lugar mesmo, o rosto de seu companheiro. O rapaz ainda quis pensar que haviam se perdido por acaso. Resolveu ficar ali mesmo, esperando que o outro voltasse. Pouco tempo depois um sujeito subiu numa daquelas torres e comeÚou a cantar; todas as pessoas ajoelharam-se no chÇo, bateram com a cabeÚa no solo, e cantaram tambÊm. Depois, como um bando de formigas trabalhadoras, desfizeram as barracas e foram embora. O sol comeÚou a ir embora tambÊm. O rapaz olhou o sol durante muito tempo, atÊ que ele se escondeu atrÂs das casas brancas que davam a volta na praÚa. Lembrou-se que quando aquele sol nascera de manhÇ, ele estava em outro continente, era um pastor, tinha sessenta ovelhas, e um encontro marcado com uma moÚa. De manhÇ ele sabia tudo que iria acontecer enquanto andava pelos campos. Entretanto, agora que o sol se escondia, ele estava num paÎs diferente, um estranho numa terra estranha, onde nem sequer podia entender a lÎngua que falavam. J nÇo era um pastor, e nÇo tinha mais nada na vida, nem mesmo dinheiro para voltar e comeÚar tudo de novo. "Tudo isto entre o nascente e o poente do mesmo sol" ­ pensou o rapaz. E sentiu pena de si mesmo, porque Ás vezes as coisas mudam na vida no espaÚo de um simples grito, antes que as pessoas possam se acostumar com elas. Tinha vergonha de chorar. Jamais havia chorado na frente de suas prÕprias ovelhas. Entretanto, o mercado estava vazio e ele estava longe da pÂtria. O rapaz chorou. Chorou porque Deus era injusto, e retribuÎa desta maneira Ás pessoas que acreditavam em seus prÕprios sonhos. "Quando eu estava com as ovelhas eu era feliz, e espalhava sempre felicidade Á minha volta. As pessoas me viam chegar e me recebiam bem. "Mas agora estou triste e infeliz. O que farei? Vou ser mais amargo e nÇo vou confiar nas pessoas, porque uma pessoa me traiu. Vou odiar aqueles que encontraram tesouros escondidos, porque eu nÇo encontrei o meu. E vou sempre procurar manter o pouco que tenho, porque sou pequeno demais para abraÚar o mundo". Abriu seu alforje para ver o que tinha l dentro; talvez tivesse sobrado alguma coisa do sanduÎche que havia comido no barco. Mas sÕ encontrou o livro grosso, o casaco, e as duas pedras que o velho lhe dera. Ao olhar as pedras, sentiu uma imensa sensaÚÇo de alÎvio. Tinha trocado seis ovelhas por duas pedras preciosas, saÎdas de um peitoral de ouro. Podia vender as pedras e comprar a passagem de volta. "Agora serei mais esperto", pensou o rapaz, tirando as pedras do alforje para escondË-las dentro do bolso. Ali era um porto, e esta era a ßnica verdade que aquele homem lhe dissera; um porto est sempre cheio de ladrÈes. Agora entendia tambÊm o desespero do dono do bar: estava tentando dizer- lhe para nÇo confiar naquele homem. "Sou como todas as pessoas: vejo o mundo da maneira que desejava que as coisas acontecessem, e nÇo da maneira que as coisas acontecem". Ficou olhando as pedras. Tocou com cuidado cada uma, sentindo a temperatura e a superfÎcie lisa. Elas eram seu tesouro. O simples toque das pedras lhe deu mais tranqØilidade. Elas lhe lembravam do velho. "Quando vocË quer uma coisa, todo o Universo conspira para que possa consegui-la", dissera-lhe o velho. Queria entender como aquilo podia ser verdade. Estava ali num mercado vazio, sem um centavo no bolso, e sem ovelhas para guardar aquela noite. Mas as pedras eram a prova de que tinha encontrado um rei ­ um rei que sabia a sua histÕria, sabia da arma do seu pai e da sua primeira experiËncia sexual. "As pedras servem para adivinhaÚÇo. Chamam-se Urim e Tumim". O rapaz colocou de novo as pedras dentro do saco e resolveu experimentar. O velho havia falado que fizesse perguntas claras, porque as pedras sÕ serviam para quem sabe o que quer. O rapaz entÇo perguntou se a bËnÚÇo do velho continuava ainda com ele. Tirou uma das pedras. Era "sim". "Vou encontrar meu tesouro?" perguntou o rapaz. Enfiou a mÇo no alforje e ia pegando uma das pedras, quando ambas escorregaram por buraco no tecido. O rapaz nunca havia percebido que seu alforje estava rasgado. Abaixou-se para pegar o Urim e o Tumim, e colocÂ-los de novo dentro do saco. Ao vË-las no chÇo, porÊm, uma outra frase surgiu em sua cabeÚa. "Aprenda a respeitar e seguir os sinais", havia falado o velho rei. Um sinal. O rapaz riu para si mesmo. Depois apanhou as duas pedras no chÇo e as recolocou no alforje. NÇo pensava costurar o buraco ­ as pedras poderiam escapar por ali sempre que desejassem. Ele havia entendido que certas coisas a gente nÇo devia perguntar ­ para nÇo fugir do prÕprio destino. "Prometi tomar minhas prÕprias decisÈes", disse para si mesmo. Mas as pedras tinham dito que o velho, continuava com ele, e isto lhe deu mais confianÚa. Olhou de novo para o mercado vazio, e nÇo sentiu o desespero de antes. NÇo era um mundo estranho; era um mundo novo. Pois, afinal de contas, tudo que ele queria era exatamente isto: conhecer mundos novos. Mesmo que ele jamais chegasse atÊ as Pir×mides, ele j tinha ido muito mais longe do que qualquer pastor que conhecia. "Ah, se eles soubessem que a apenas duas horas de barco existem tantas coisas diferentes". O mundo novo aparecia na sua frente sob a forma de um mercado vazio, mas ele j vira aquele mercado cheio de vida, e nunca mais ia se esquecer. Lembrou-se da espada ­ foi um preÚo caro contemplÂ-la um pouco, mas tambÊm nunca tinha visto nada igual antes. Sentiu de repente que ele podia olhar o mundo como uma pobre vÎtima de um ladrÇo, ou como um aventureiro em busca de um tesouro. "Sou um aventureiro em busca de um tesouro", pensou, antes de cair exausto no sono. Acordou com um sujeito lhe cutucando. Tinha dormido no meio do mercado, e a vida daquela praÚa estava prestes a recomeÚar de novo. Olhou em volta, procurando suas ovelhas, e percebeu que estava em outro mundo. Ao invÊs de sentir-se triste, ficou feliz. NÇo tinha mais que seguir em busca de Âgua e comida; podia seguir em busca de um tesouro. NÇo tinha um centavo no bolso, mas tinha fÊ na vida. Havia escolhido, na noite anterior, ser um aventureiro igual aos personagens dos livros que costumava ler. ComeÚou a andar sem pressa pela praÚa. Os mercadores colocaram em pÊ suas barracas; ajudou um doceiro a montar a sua. Havia um sorriso diferente no rosto daquele doceiro: estava alegre, desperto para a vida, pronto para comeÚar um bom dia de trabalho. Era um sorriso que lembrava alguma coisa do velho, aquele velho e misterioso rei que havia conhecido. "Este doceiro nÇo est fazendo doces porque quer viajar, ou porque quer casar com a filha de um comerciante. "Este doceiro faz doce porque gosta disto", pensou o rapaz, e notou que podia fazer a mesma coisa que o velho ­ saber se uma pessoa est prÕxima ou distante de sua Lenda Pessoal. SÕ em olhar para ela. "ê fÂcil, e eu nunca havia percebido isto." Quando acabaram de montar a barraca, o doceiro lhe estendeu o primeiro doce que havia feito. O rapaz comeu satisfeito, agradeceu, e seguiu seu caminho. Quando j havia se afastado um pouco, lembrou-se que a barraca havia sido montada com uma pessoa falando Ârabe e a outra, espanhol. E tinham se entendido perfeitamente. "Existe uma linguagem que est alÊm das palavras", pensou o rapaz. "Eu j experimentei isto com as ovelhas, e agora estou experimentando com os homens." Estava aprendendo vÂrias coisas novas. Coisas que ele j havia experimentado, e que no entanto eram novas, porque tinham passado por ele que tivesse percebido. E nÇo tinha percebido, porque estava acostumado com elas. "Se eu aprender a decifrar esta linguagem sem palavras, eu vou conseguir decifrar o mundo". "Tudo Ê uma coisa sÕ", falava o velho. Resolveu andar sem pressa e sem ansiedade pelas pequenas ruas de T×nger: sÕ desta maneira ia conseguir perceber os sinais. Isto exigia muita paciËncia, mas esta Ê a primeira virtude que um pastor aprende. Mais uma vez percebeu que estava aplicando naquele mundo estranho as mesmas liÚÈes que suas ovelhas lhe ensinaram. "Tudo Ê uma coisa sÕ", havia falado o velho. O Mercador de Cristais viu o dia nascer, e sentiu a mesma angßstia que experimentava todas as manhÇs. Estava h quase trinta anos naquele mesmo lugar, uma loja no alto de uma ladeira, onde raramente passava um comprador. Agora era tarde para mudar qualquer coisa: tudo que havia aprendido na vida era vender e comprar cristais. Houve um tempo em que muita gente conhecia sua loja: mercadores Ârabes, geÕlogos franceses e ingleses, soldados alemÇes sempre com dinheiro no bolso. Naquela Êpoca era uma grande aventura vender cristais, e ele pensava como ia ficar rico, e como ia ter belas mulheres em sua velhice. Depois o tempo foi passando, e a cidade tambÊm. Ceuta cresceu mais que T×nger, e o comÊrcio mudou de rumo. Os vizinhos mudaram-se, e ficaram apenas algumas lojas na ladeira. NinguÊm ia subir uma ladeira por causa de umas poucas lojas. Mas o Mercador de Cristais nÇo tinha escolha. Tinha vivido trinta anos de sua vida comprando e vendendo peÚas de cristal, e agora era tarde demais para mudar de rumo. Durante a manhÇ inteira ficou olhando o pequeno movimento da rua. Fazia aquilo h anos, e j sabia o horÂrio de cada pessoa. Quando faltavam alguns minutos para o almoÚo, um rapaz estrangeiro parou diante de sua vitrine. Estava vestido normalmente, mas os olhos experimentados do Mercador de Cristais concluÎram que ele nÇo tinha dinheiro. Mesmo assim resolveu entrar e esperar alguns instantes, atÊ que o rapaz fosse embora. Havia um cartaz na porta dizendo que ali se falavam vÂrias lÎnguas. O rapaz viu um homem aparecer atrÂs do balcÇo. ­ Posso limpar estes vasos se vocË quiser ­ disse o rapaz. ­ Assim como eles estÇo, nenhum comprador vai querer comprar. O homem olhou sem dizer nada ­ Em troca, vocË me paga um prato de comida. O homem continuou em silËncio, e o rapaz sentiu que precisava tomar uma decisÇo. Dentro de seu alforje havia o casaco ­ nÇo ia precisar mais dele no deserto. Tirou o casaco e comeÚou a limpar os vasos. Durante meia hora limpou todos os vasos da vitrine; neste meio tempo entraram dois fregueses e compraram cristais do homem. Quando acabou de limpar tudo, ele pediu ao homem um prato de comida. ­ Vamos comer ­ disse o Mercador de Cristais. Colocou uma tabuleta na porta, e foram atÊ um minßsculo bar no alto na ladeira. Assim que sentaram na ßnica mesa existente, o Mercador de Cristais sorriu. ­ NÇo era preciso limpar nada ­ disse. ­ A lei do AlcorÇo obriga a dar de comer a quem tem fome. ­ EntÇo por que me deixou fazer isto? ­ perguntou o rapaz. ­ Porque os cristais estavam sujos. E tanto vocË como eu precisÂvamos limpar as cabeÚas dos maus pensamentos. Quando acabaram de comer, o Mercador virou-se para o rapaz: ­ Queria que vocË trabalhasse na minha loja . Hoje entraram dois fregueses enquanto vocË limpava os vasos, e isto Ê um bom sinal. "As pessoas falam muito em sinais", pensou o pastor. "Mas nÇo percebem o que estÇo dizendo. Da mesma maneira que eu nÇo percebia que h muitos anos falava com minhas ovelhas uma linguagem sem palavras". ­ Quer trabalhar para mim? ­ insistiu o Mercador. ­ Posso trabalhar o resto do dia ­ respondeu o rapaz. ­ Limparei atÊ de madrugada todos os cristais da loja. Em troca, preciso de dinheiro para estar amanhÇ no Egito. O velho riu de novo. ­ Mesmo que vocË limpasse meus cristais durante um ano inteiro, mesmo que vocË ganhasse uma boa comissÇo de vendas em cada um deles, ainda ia ter que arranjar dinheiro emprestado para ir ao Egito. Existem milhares de quilÆmetros de deserto entre T×nger e as Pir×mides. Houve um momento de silËncio tÇo grande, que a cidade parecia ter adormecido. J nÇo haviam mais os bazares, as discussÈes dos mercadores, os homens que subiam em minaretes e cantavam, as belas espadas com seus punhos cravejados. J nÇo havia mais a esperanÚa e a aventura, velhos reis e Lendas Pessoais, o tesouro e as pir×mides. Era como se todo o mundo estivesse quieto, porque a alma do rapaz estava em silËncio. NÇo havia. nem dor, nem sofrimento, nem decepÚÇo: apenas um olhar vazio atravÊs da pequena porta do bar, e uma vontade imensa de morrer, de que tudo acabasse para sempre naquele minuto. O Mercador olhou espantado para o rapaz. Era como se toda a alegria que tinha visto aquela manhÇ houvesse subitamente desaparecido. ­ Posso lhe dar dinheiro para voltar Á sua terra, meu filho ­ disse o Mercador de Cristais. O rapaz continuou em silËncio. Depois levantou-se, ajeitou as roupas, e pegou seu alforje. ­ Vou trabalhar com o senhor ­ disse. E depois de outro silËncio demorado, concluiu: ­ Preciso de dinheiro para comprar algumas ovelhas. H quase um mËs o rapaz estava trabalhando para o Mercador de Cristais, e nÇo era exatamente o tipo de emprego que lhe fazia feliz. O Mercador passava o dia inteiro resmungando atrÂs do balcÇo, pedindo que tomasse cuidado com as peÚas, que nÇo deixasse quebrar nada. Mas continuava no emprego porque o Mercador era um velho rabujento, mas nÇo era injusto; o rapaz recebia uma boa comissÇo em cada peÚa vendida, e j havia conseguido juntar algum dinheiro. Naquela manhÇ havia feito certos cÂlculos: se continuasse a trabalhar todos os dias como estava trabalhando, ia precisar de um ano inteiro para poder comprar algumas ovelhas. ­ Gostaria de fazer uma estante para os cristais ­ disse o rapaz ao Mercador. ­ Ela pode ser colocada do lado de fora, e atrair quem est passando l embaixo da ladeira. ­ Nunca fiz uma estante antes ­ respondeu o Mercador. ­ As pessoas passam e esbarram. Os cristais se quebram. ­ Quando eu andava pelo campo com as ovelhas, elas podiam morrer se encontrassem uma cobra. Mas isto faz parte da vida das ovelhas e dos pastores. O Mercador atendeu um freguËs que desejava trËs vasos de cristal. Estava vendendo melhor do que nunca, como se o mundo tivesse voltado no tempo, para a Êpoca em que a rua era uma das principais atraÚÈes de T×nger. ­ O movimento j melhorou bastante ­ disse ao rapaz, quando o freguËs saiu. ­ O dinheiro permite que eu viva melhor, e lhe devolver as suas ovelhas em pouco tempo. Para que exigir mais da vida? ­ Porque temos que seguir os sinais ­ falou o rapaz, quase sem querer; e arrependeu-se do que dissera, porque o Mercador nunca havia encontrado um rei. "Chama-se PrincÎpio FavorÂvel, sorte de principiante. Porque a vida quer que vocË viva sua Lenda Pessoal", falara o velho. O Mercador, entretanto, estava entendendo o que o rapaz falava. A simples presenÚa dele na loja era um sinal, e com o passar dos dias, com o dinheiro entrando na caixa, ele nÇo estava arrependido de haver contratado o espanhol. Mesmo que o rapaz estivesse ganhando mais do que devia; como ele sempre havia achado que as vendas nÇo mudavam mais, tinha oferecido uma comissÇo alta, e sua intuiÚÇo dizia que em breve o garoto estaria de volta Ás suas ovelhas. ­ Por que vocË queria conhecer as Pir×mides? ­ perguntou, para mudar o assunto da estante. ­ Porque sempre me falaram nelas ­ disse o rapaz, evitando falar no seu sonho. Agora o tesouro era uma lembranÚa sempre dolorosa, e o rapaz evitava pensar nisto. ­ Eu nÇo conheÚo ninguÊm aqui que queira atravessar o deserto sÕ para conhecer as Pir×mides ­ disse o Mercador. ­ SÇo apenas um monte de pedras. VocË pode construir uma no seu quintal. ­ VocË nunca teve sonhos de viajar ­ disse o rapaz, atendendo mais um freguËs que entrava na loja. Dois dias depois o velho procurou o rapaz para falar da estante. ­ NÇo gosto de mudanÚas ­ disse o Mercador. ­ Nem eu nem vocË somos como Hassan, o rico comerciante. Se ele erra numa compra, isto nÇo o afeta muito. Mas nÕs dois temos sempre que conviver com nossos erros. "ê verdade", pensou o rapaz. ­ Para que vocË quer a estante? ­ disse o Mercador. ­ Quero voltar mais rÂpido para minhas ovelhas. Temos que aproveitar quando a sorte est do nosso lado, e fazer tudo para ajudÂ-la da mesma maneira que ela est nos ajudando. Chama-se PrincÎpio FavorÂvel. Ou "sorte de principiante". O velho ficou calado por algum tempo. Depois disse: ­ O Profeta nos deu o AlcorÇo, e nos deixou apenas cinco obrigaÚÈes para serem seguidas em nossa existËncia. A mais importante Ê a seguinte: sÕ existe um Deus. As outras sÇo: rezar cinco vezes por dia, fazer jejum no mËs de RamadÇ, fazer caridade com os pobres. Parou de falar. Seus olhos ficaram cheios de Âgua ao falar do Profeta. Era um homem fervoroso, e mesmo com toda a sua impaciËncia, procurava viver sua vida de acordo com a lei muÚulmana. ­ E qual a quinta obrigaÚÇo? ­ perguntou o rapaz. ­ H dois dias atrÂs vocË disse que eu nunca tive sonhos de viajar ­ respondeu o Mercador. ­ A quinta obrigaÚÇo de todo muÚulmano Ê uma viagem. Devemos ir, pelo menos uma vez na vida, Á cidade sagrada de Meca. "Meca Ê muito mais longe que as Pir×mides. Quando eu era jovem, preferi juntar o pouco dinheiro que tinha para comeÚar esta loja. Pensava em ser rico algum dia, para ir a Meca. Passei a ganhar dinheiro, mas nÇo podia deixar ninguÊm cuidando dos cristais, porque os cristais sÇo coisas delicadas. Ao mesmo tempo, via passar defronte a minha loja muitas pessoas que seguiam na direÚÇo de Meca. Haviam alguns peregrinos ricos, que iam com um sÊquito de criados e de camelos, mas a maior parte das pessoas era muito mais pobre do que eu era". "Todas iam e voltavam contentes, e colocavam na porta de suas casas os sÎmbolos da peregrinaÚÇo. Uma delas, um sapateiro que vivia de remendar as botas alheias, me disse que havia caminhado quase um ano pelo deserto, mas que ficava sempre mais cansado quando tinha que caminhar alguns quarteirÈes em T×nger para comprar couro". ­ Por que nÇo vai a Meca agora? ­ perguntou o rapaz. ­ Porque Meca Ê o que me mantÊm vivo. ê o que me faz agØentar todos estes dias iguais, estes vasos calados nas prateleiras, o almoÚo e o jantar naquele restaurante horrÎvel. Tenho medo de realizar meu sonho, e depois nÇo ter mais motivos para continuar vivo. "VocË sonha com ovelhas e com pir×mides. ê diferente de mim, porque deseja realizar seus sonhos. Eu quero apenas sonhar com Meca. J imaginei milhares de vezes a travessia do deserto, minha chegada na praÚa onde est a Pedra Sagrada, as sete voltas que devo dar em torno dela antes de tocÂ-la. J imaginei quais pessoas estarÇo do meu lado, na minha frente, e as conversas e oraÚÈes que compartilharemos juntos. Mas tenho medo que seja uma grande decepÚÇo, entÇo prefiro apenas sonhar". Neste dia, o Mercador deu permissÇo ao rapaz para construir a estante. Nem todos podem ver os sonhos da mesma maneira. Mais dois meses se passaram, e a estante trouxe muitos fregueses Á loja dos cristais. O rapaz calculou que, se trabalhasse mais seis meses, poderia voltar Á Espanha e comprar sessenta ovelhas, e mais sessenta ovelhas. Em menos de um ano ele teria duplicado seu rebanho, e ia poder negociar com os Ârabes, porque j conseguia falar aquela lÎngua estranha. Depois daquela manhÇ no mercado, ele nÇo havia mais utilizado o Urim e o Tumim, porque o Egito passou a ser apenas um sonho tÇo distante para ele como era a cidade de Meca para o Mercador. Entretanto, o rapaz agora estava contente com seu trabalho, e pensava a todo momento no dia em que iria desembarcar em Tarifa como um vencedor. "Lembre-se de saber sempre o que quer", havia falado o velho rei. O rapaz sabia, e estava trabalhando para isto. Talvez seu tesouro tivesse sido chegar Áquela terra estranha, encontrar um assaltante, e dobrar o nßmero de seu rebanho sem ter gasto um centavo sequer. Estava orgulhoso de si mesmo. Havia aprendido coisas importantes, como o comÊrcio de cristais, linguagem sem palavras, e os sinais. Uma tarde viu um homem no alto da ladeira, reclamando que era impossÎvel encontrar um lugar decente para beber alguma coisa depois de toda a subida. O rapaz j conhecia a linguagem dos sinais, e chamou o velho para conversar. ­ Vamos vender ch para as pessoas que sobem a ladeira ­ disse ele. ­ Muitas pessoas vendem ch por aqui ­ respondeu o Mercador. ­ Podemos vender ch em vasos de cristal. Assim as pessoas vÇo gostar do chÂ, e vÇo querer comprar os cristais. Porque o que mais seduz os homens Ê a beleza. O Mercador olhou para o rapaz durante algum tempo. NÇo respondeu nada. Mas naquela tarde, depois de fazer suas oraÚÈes e fechar a loja, sentou-se na calÚada com ele e convidou-o a fumar narguilÊ ­ aquele estranho cachimbo que os Ârabes usavam. ­ O que vocË est procurando? ­ perguntou o velho Mercador de Cristais. ­ J lhe disse. Preciso comprar de volta as ovelhas. E para isto Ê necessÂrio dinheiro. O velho colocou algumas brasas novas no narguilÊ, e deu uma longa tragada. ­ H trinta anos tenho esta loja. ConheÚo o bom e o mau cristal, e conheÚo todos os detalhes do seu funcionamento. Estou acostumado com seu tamanho e seu movimento. Se vocË colocar ch em cristais, a loja ir crescer. EntÇo eu vou ter que mudar minha maneira de vida. ­ E isto nÇo Ê bom? ­ Estou acostumado com minha vida. Antes de vocË, eu pensava que havia perdido tanto tempo no mesmo lugar, enquanto meus amigos todos mudavam, quebravam, ou progrediam Isto me deixava com uma imensa tristeza. Agora eu sei que nÇo era bem assim: a loja tem o exato tamanho que eu sempre quis que ela tivesse. NÇo quero mudar, porque nÇo sei como mudar. J estou muito acostumado comigo mesmo. O rapaz nÇo sabia o que dizer. O velho entÇo continuou: ­ VocË foi uma bËnÚÇo para mim. E hoje estou entendendo uma coisa: toda bËnÚÇo que nÇo Ê aceita, transforma-se numa maldiÚÇo. Eu nÇo quero mais da vida. E vocË est me forÚando a ver riquezas e horizontes que eu nunca conheci. Agora que os conheÚo, e que conheÚo minhas possibilidades imensas, vou me sentir pior do que me sentia antes. Porque sei que posso ter tudo, e nÇo quero. "Ainda bem que eu nÇo disse nada ao pipoqueiro", pensou o rapaz. Continuaram fumando o narguilÊ por algum tempo, enquanto o sol se escondia. Estavam conversando em Ârabe, e o rapaz estava satisfeito consigo mesmo, porque falava Ârabe. Houve uma Êpoca em que ele achou que as ovelhas podiam ensinar tudo sobre o mundo. Mas as ovelhas nÇo sabiam ensinar Ârabe. "Devem ter outras coisas no mundo que as ovelhas nÇo sabem ensinar", pensou o rapaz, enquanto olhava o Mercador em silËncio. "Porque elas sÕ estÇo em busca de Âgua e comida. "Acho que nÇo sÇo elas que ensinam: eu Ê que aprendo". ­ Maktub ­ disse finalmente o mercador. ­ O que Ê isto? ­ VocË precisaria ter nascido Ârabe para compreender ­ respondeu ele. ­ Mas a traduÚÇo seria algo como "est escrito". E enquanto apagava as brasas do narguilÊ, disse que o rapaz podia comeÚar a vender ch nos vasos. ás vezes, Ê impossÎvel deter o rio da vida. Os homens subiam a ladeira e ficavam cansados. EntÇo, l no seu topo, havia uma loja de belos cristais com ch de menta refrescante. Os homens entravam para beber o chÂ, que era servido em lindos vasos de cristal. "Jamais minha mulher pensou nisto", lembrava um, e comprava alguns cristais, porque ia ter visitas naquela noite: seus convidados ficariam impressionados com a riqueza das taÚas. Outro homem passou a garantir que o ch era sempre mais gostoso quando servido em recipientes de cristal, pois conservavam melhor o aroma. Um terceiro disse ainda que era tradiÚÇo no Oriente utilizar vasos de cristal junto com chÂ, por causa de seus poderes mÂgicos. Em pouco tempo, a novidade se espalhou, e muitas pessoas passaram a subir atÊ o topo da ladeira para conhecer a loja que estava fazendo algo de novo num comÊrcio tÇo antigo. Outras lojas de ch em copos de cristal foram abertas, mas nÇo ficavam em cima de uma ladeira, e por isso estavam sempre vazias. Em pouco tempo, o Mercador teve que contratar mais dois empregados. Passou a importar, junto com os cristais, quantidades enormes de chÂ, que eram diariamente consumidas pelos homens e mulheres com sede de coisas novas. E assim transcorreram seis meses. O rapaz acordou antes do sol nascer. Tinham-se passado onze meses e nove dias desde que ele havia pisado pela primeira vez no continente africano. Vestiu sua roupa Ârabe, de linho branco, comprada especialmente para aquele dia. Colocou o lenÚo na cabeÚa, fixo por um anel feito de pele de camelo. CalÚou as sandÂlias novas, e desceu sem fazer qualquer ruÎdo. A cidade ainda dormia. Ele fez um sanduÎche de gergelim, e bebeu ch quente no vaso de cristal. Depois sentou-se na soleira da porta, fumando sozinho o narguilÊ. Fumou em silËncio, sem pensar em nada, escutando apenas o ruÎdo sempre constante do vento que soprava trazendo o cheiro do deserto. Depois que acabou de f'umar, enfiou a mÇo num dos bolsos do traje, e ficou alguns instantes contemplando o que havia retirado l de dentro. Havia um grande maÚo de dinheiro. O suficiente para comprar cento e vinte ovelhas, uma passagem de volta, e uma licenÚa de comÊrcio entre seu paÎs e o paÎs onde estava. Esperou pacientemente que o velho acordasse e abrisse a loja. Os dois entÇo foram juntos tomar mais chÂ. ­ Vou embora hoje ­ disse o rapaz. ­ Tenho dinheiro para comprar minhas ovelhas. VocË tem dinheiro para ir Á Meca. O velho nÇo disse nada. ­ PeÚo sua bËnÚÇo ­ insistiu o rapaz. ­ VocË me ajudou. O velho continuou a preparar o ch em silËncio. Depois de um certo tempo, porÊm, virou-se para o rapaz. ­ Tenho orgulho de vocË ­ disse. ­ VocË trouxe alma para a minha loja de cristais. Mas sabe que eu nÇo vou Á Meca. Como sabe que nÇo voltar a comprar ovelhas. ­ Quem lhe disse isto? ­ perguntou o rapaz, assustado. ­ Maktub ­ disse simplesmente o velho Mercador de Cristais. E o abenÚoou. O rapaz foi atÊ seu quarto e juntou tudo que tinha. Eram trËs sacolas cheias. Quando j estava saindo, notou que, num canto do quarto, havia seu velho alforje de pastor. Estava todo amassado, e ele quase nem se lembrava mais dele. L dentro estava ainda o mesmo livro e o casaco. Quando ele tirou o casaco, pensando em dar de presente para um rapaz na rua, as duas pedras rolaram pelo chÇo. O Urim e o Tumim. O rapaz entÇo se lembrou do velho rei, e ficou surpreso em perceber h quanto tempo nÇo pensava mais nisto. Durante um ano havia trabalhado sem parar, pensando apenas em conseguir dinheiro para nÇo voltar de cabeÚa baixa para a Espanha. "Nunca desista dos seus sonhos", havia falado o velho rei. "Siga os sinais". O rapaz pegou o Urim e o Tumim no chÇo, e teve novamente aquela estranha sensaÚÇo de que o rei estava perto. Trabalhara duro durante um ano, e os sinais indicavam que agora era o momento de partir. "Vou voltar exatamente a ser o que era antes", pensou o rapaz. "E as ovelhas nÇo me ensinaram a falar Ârabe". As ovelhas, entretanto, tinham ensinado uma coisa muito mais importante: que havia uma linguagem no mundo que todos compreendiam, e que o rapaz tinha utilizado durante todo aquele tempo para fazer a loja progredir. Era a linguagem do entusiasmo, das coisas feitas com amor e com vontade, em busca de algo que se desejava ou em que se acreditava. T×nger j nÇo era mais uma cidade estranha, e ele sentiu que da mesma maneira que tinha conquistado aquele lugar, poderia conquistar o mundo. "Quando vocË deseja uma coisa, todo o Universo conspira para que possa realizÂ-la", havia falado o velho rei. Mas o velho rei nÇo falara de assaltos, de desertos imensos, de pessoas que conhecem os seus sonhos mas nÇo desejam realizÂ-los. O velho rei nÇo havia falado que as Pir×mides eram apenas um monte de pedras, e qualquer um podia fazer um monte de pedras em seu quintal. E tinha se esquecido de dizer que, quando se tem dinheiro para comprar um rebanho maior do que o que possuÎa, deve-se comprar este rebanho. O rapaz pegou o alforje e juntou com seus outros sacos. Desceu as escadas; o velho estava atendendo um casal estrangeiro, enquanto dois outros fregueses andavam pela loja, tomando ch em vasos de cristal. Era um bom movimento para aquela hora da manhÇ. Do lugar onde estava, notou pela primeira vez que o cabelo do Mercador lembrava muito o cabelo do velho rei. Lembrou-se do sorriso do doceiro, no primeira dia em T×nger, quando nÇo tinha para onde ir nem o que comer; tambÊm aquele sorriso lembrava o velho rei. "Como se ele tivesse passado por aqui e deixado uma marca", pensou. "E cada pessoa nÇo tivesse j conhecido este rei em algum momento de suas existËncias. Afinal de contas, ele disse que sempre aparecia para quem vive sua Lenda Pessoal". Saiu sem se despedir do Mercador de Cristais. NÇo queria chorar porque as pessoas podiam ver. Mas ia ter saudade de todo aquele tempo, e de todas as coisas boas que havia aprendido. Estava mais confiante em si e tinha vontade de conquistar o mundo. "Mas estou indo para os campos que j conheÚo, conduzir de novo as ovelhas". E nÇo estava mais contente com sua decisÇo. Tinha trabalhado um ano inteiro para realizar um sonho, e este sonho, a cada minuto, ia perdendo sua import×ncia. Talvez porque nÇo fosse seu sonho. "Quem sabe Ê melhor ser como o Mercador de Cristais: nunca ir Á Meca, e viver da vontade de conhecË-la". Mas estava segurando o Urim e o Tumim nas mÇos, e estas pedras lhe traziam a forÚa e a vontade do velho rei. Por uma coincidËncia ­ ou um sinal, pensou o rapaz ­ ele chegou ao bar onde havia entrado no primeiro dia. NÇo havia mais o ladrÇo, e o dono lhe trouxe uma xÎcara de chÂ. "Sempre poderei voltar a ser pastor", pensou o rapaz. "Aprendi a cuidar das ovelhas, e nunca mais me esquecerei de como elas sÇo. Mas talvez nÇo tenha outra oportunidade de chegar atÊ as Pir×mides do Egito. O velho tinha um peitoral de ouro, e sabia minha histÕria. Era um rei de verdade, um rei sÂbio". Estava apenas a duas horas de barco das planÎcies de Andaluzia, mas havia um deserto inteiro entre ele as Pir×mides. O rapaz percebeu talvez esta maneira de pensar a mesma situaÚÇo: na verdade, ele estava duas horas mais perto do seu tesouro. Mesmo que, para caminhar estas duas horas, tivesse demorado quase um ano inteiro. "Sei porque quero voltar para minhas ovelhas. Eu j conheÚo as ovelhas; nÇo dÇo muito trabalho, e podem ser amadas. NÇo sei se o deserto pode ser amado, mas Ê o deserto que esconde o meu tesouro. Se eu nÇo conseguir encontrÂ-lo, poderei sempre voltar para casa. Mas de repente a vida me deu dinheiro suficiente, e eu tenho todo o tempo que preciso; por que nÇo?" Sentiu uma alegria imensa naquele momento. Sempre podia voltar a ser pastor de ovelhas. Sempre podia voltar a ser vendedor de cristais. Talvez o mundo tivesse muitos outros tesouros escondidos, mas ele havia tido um sonho repetido e encontrado um rei. NÇo acontecia com qualquer pessoa. Estava contente quando saiu do bar. Havia se lembrado que um dos fornecedores do Mercador trazia os cristais em caravanas que cruzavam o deserto. Manteve o Urim e o Tumim nas mÇos; por causa daquelas duas pedras, estava de volta ao caminho de seu tesouro. "Sempre estou perto dos que vivem a Lenda Pessoal", dissera o velho rei. NÇo custava nada ir atÊ o armazÊm, saber se as Pir×mides eram de fato muito longe. O InglËs estava sentado numa construÚÇo cheirando a animais, suor, e poeira. NÇo podia chamar aquilo de armazÊm; era apenas um curral. "Toda a minha vida para ter que passar por um lugar como este", pensou enquanto folheava distraÎdo uma revista de quÎmica. "Dez anos de estudo me conduzem a um curral". Mas era preciso seguir adiante. Tinha que acreditar em sinais. Toda a sua vida, todos os seus estudos foram em busca da linguagem ßnica que o Universo falava. Primeiro havia se interessado por Esperanto, depois por religiÈes, e finalmente por Alquimia. Sabia falar Esperanto, entendia perfeitamente as diversas religiÈes, mas ainda nÇo era um Alquimista. Tinha conseguido decifrar coisas importantes, Ê verdade. Mas suas pesquisas chegaram a um ponto onde nÇo conseguia progredir mais. Tinha tentado em vÇo entrar em contato com algum alquimista. Mas os alquimistas eram pessoas estranhas, que sÕ pensavam neles mesmos, e quase sempre recusavam ajuda. Quem sabe, nÇo haviam descoberto o segredo da Grande Obra ­ chamada de Pedra Filosofal ­ e por isso se fechavam no silËncio. J havia gasto parte da fortuna que seu pai lhe deixara, buscando inutilmente a Pedra Filosofal. Tinha freqØentado as melhores bibliotecas do mundo, e comprado os livros mais importantes e mais raros sobre alquimia. Num deles descobriu que h muitos anos atrÂs, um famoso alquimista Ârabe havia visitado a Europa. Diziam que ele tinha mais de duzentos anos, que havia descoberto a Pedra Filosofal e o Elixir da Longa Vida. O InglËs ficou impressionado com a histÕria. Mas tudo nÇo teria passado de mais uma lenda, se um amigo seu ­ voltando de uma expediÚÇo arqueolÕgica no deserto ­ nÇo lhe tivesse contado sobre um Ârabe que tinha poderes excepcionais. ­ Mora no oÂsis de Al-Fayoum ­ disse seu amigo. ­ E as pessoas contam que tem duzentos anos, e que Ê capaz de transformar qualquer metal em ouro. O InglËs nÇo coube em si de tanta excitaÚÇo. Imediatamente cancelou todos os seus compromissos, juntou os livros mais importantes, e agora estava ali, naquele armazÊm parecido com um curral, enquanto l fora uma imensa caravana se preparava para cruzar o Saara. A caravana passava por Al-Fayoum. "Tenho que conhecer este maldito Alquimista", pensou o InglËs. E o cheiro dos animais tornou-se um pouco mais tolerÂvel. Um jovem Ârabe, tambÊm carregado de malas, entrou no lugar onde o InglËs estava e o cumprimentou. ­ Aonde vocË vai? ­ perguntou o jovem Ârabe. ­ Para o deserto ­ respondeu o InglËs, e voltou para a sua leitura. NÇo queria conversar agora. Precisava recordar tudo que havia aprendido em dez anos, pois o Alquimista deveria submetË-lo a alguma espÊcie de prova. O jovem Ârabe tirou um livro e comeÚou a ler. O livro estava escrito em espanhol. "Ainda bem", pensou o InglËs. Sabia falar espanhol melhor que Ârabe, e se este rapaz fosse atÊ Al-Fayoum, ia ter alguÊm para conversar quando nÇo estivesse ocupado com coisas importantes. "Que coisa engraÚada" ­ pensou o rapaz enquanto tentava mais uma vez ler a cena do enterro que iniciava o livro. ­ "Faz quase dois anos que comecei a ler, e nÇo consigo passar destas pÂginas". Mesmo sem um rei para interrompË-lo, ele nÇo conseguia se concentrar. Ainda estava em dßvida quanto Á sua decisÇo. Mas estava percebendo uma coisa importante: as decisÈes eram apenas o comeÚo de alguma coisa. Quando alguÊm tomava uma decisÇo, na verdade estava mergulhando numa correnteza poderosa, que levava a pessoa para um lugar que jamais havia sonhado na hora de decidir. "Quando resolvi ir em busca do meu tesouro, nunca imaginei trabalhar numa loja de cristais", pensou o rapaz, para confirmar seu raciocÎnio. "Da mesma maneira, esta caravana pode ser uma decisÇo minha, mas seu percurso ser sempre um mistÊrio". Na sua frente havia um europeu tambÊm lendo um livro. O europeu era antipÂtico, e tinha olhado com desprezo quando ele entrou. Podiam atÊ ter se tornado bons amigos, mas o europeu havia interrompido a conversa. O rapaz fechou o livro. NÇo queria fazer nada que o deixasse parecido com aquele europeu. Tirou o Urim e o Tumim do bolso, e comeÚou a brincar com eles. O estrangeiro deu um grito: ­ Um Urim e um Tumim! O rapaz, mais que depressa, guardou as pedras no bolso. ­ NÇo estÇo Á venda ­ disse. ­ NÇo valem muito ­ disse o InglËs. ­ SÇo cristais de rocha, nada mais. H milhÈes de cristais de rocha na terra, mas para quem entende, estes sÇo Urim e Tumim. NÇo sabia que eles existiam nesta parte do mundo. ­ Foi o presente de um rei ­ disse o rapaz. O estrangeiro ficou mudo. Depois enfiou a mÇo no bolso e retirou, tremendo, duas pedras iguais. ­ VocË falou em um rei ­ disse. ­ E vocË nÇo acredita que os reis conversem com pastores ­ disse o rapaz, desta vez querendo encerrar a conversa. ­ Ao contrÂrio. Os pastores foram os primeiros a reconhecer um rei que o resto do mundo recusou-se a conhecer. Por isso Ê muito provÂvel que os reis conversem com pastores. E completou, com medo que o rapaz nÇo estivesse entendendo: ­ Est na BÎblia. No mesmo livro que me ensinou a fazer este Urim e este Tumim. Estas pedras eram a ßnica forma de adivinhaÚÇo permitida por Deus. Os sacerdotes as carregavam num peitoral de ouro. O rapaz ficou contente de estar naquele armazÊm. ­ Talvez isto seja um sinal ­ disse o InglËs, como quem pensa alto. ­ Quem lhe falou em sinais? ­ o interesse do rapaz crescia a cada momento. ­ Tudo na vida sÇo sinais ­ disse o InglËs, desta vez fechando a revista que estava lendo. O Universo Ê feito por uma lÎngua que todo mundo entende, mas que j se esqueceu. Estou procurando esta Linguagem Universal, alÊm de outras coisas. "Por isso estou aqui. Porque tenho que encontrar um homem que conhece esta Linguagem Universal. Um Alquimista." A conversa foi interrompida pelo chefe do armazÊm. ­ VocËs estÇo com sorte ­ disse o Ârabe gordo. ­ Sai hoje Á tarde uma caravana para Al-Fayoum. ­ Mas eu vou ao Egito ­ disse o rapaz. ­ Al-Fayoum Ê no Egito ­ disse o dono. ­ Que tipo de Ârabe vocË Ê? O rapaz disse que era espanhol. O InglËs ficou satisfeito: mesmo vestido como Ârabe, o rapaz pelo menos era europeu. ­ Ele chama de "sorte" os sinais ­ disse o InglËs, depois que o gordo Ârabe saiu. ­ Se eu pudesse, escreveria uma gigantesca enciclopÊdia sobre as palavras "sorte" e "coincidËncia". ê com estas palavras que se escreve a Linguagem Universal. Depois comentou com o rapaz que nÇo havia sido "coincidËncia" encontrÂ-lo com o Urim e o Tumim na mÇo. Perguntou se ele tambÊm estava indo em busca do Alquimista. ­ Estou indo em busca de um tesouro ­ disse o rapaz, e arrependeu-se imediatamente. Mas o InglËs pareceu nÇo dar import×ncia. ­ De certa forma, eu tambÊm estou, disse. ­ E nem sei o que quer dizer Alquimia ­ completou o rapaz, quando o dono do armazÊm comeÚou a chamÂ-los para fora. ­ Eu sou o LÎder da Caravana ­ disse um senhor de barba longa e olhos escuros. ­ Tenho poder de vida e de morte sobre cada pessoa que carrego. Porque o deserto Ê uma mulher caprichosa, e Ás vezes deixa os homens loucos. Haviam quase duzentas pessoas, e o dobro de animais. Eram camelos, cavalos, burros, aves. O InglËs tinha vÂrias malas, cheias de livros. Haviam mulheres, crianÚas, e vÂrios homens com espadas na cintura e longas espingardas nos ombros. Um imenso burburinho enchia o local, e o LÎder teve que repetir vÂrias vezes suas palavras para que todos entendessem. ­ H vÂrios homens e deuses diferentes no coraÚÇo destes homens. Mas meu ßnico Deus Ê Allah, e por ele eu juro que farei o possÎvel e o melhor para vencer mais uma vez o deserto. Agora quero que cada um de vocËs jure pelo Deus em que acredita, no fundo do seu coraÚÇo, de que ir me obedecer em qualquer circunst×ncia. No deserto, a desobediËncia significa a morte. Um murmßrio correu baixo por todas as pessoas. Estavam jurando em voz baixa diante de seu Deus. O rapaz jurou por Jesus Cristo. O InglËs ficou em silËncio. O murmßrio se estendeu um tempo maior do que uma simples jura; as pessoas tambÊm estavam pedindo proteÚÇo aos cÊus. Ouviu-se um longo toque de clarim, e cada um montou em seu animal. O rapaz e o InglËs haviam comprado camelos, e subiram com uma certa dificuldade. O rapaz ficou com pena do camelo do InglËs: estava carregado com as pesadas sacolas de livros. ­ NÇo existem coincidËncias ­ disse o InglËs, tentando continuar a conversa que haviam iniciado no armazÊm. ­ Foi um amigo que me trouxe atÊ aqui, porque conhecia um Ârabe, que... Mas a caravana comeÚou a andar, e ficou impossÎvel escutar o que o InglËs estava dizendo. Entretanto, o rapaz sabia exatamente do que se tratava: a cadeia misteriosa que vai unindo uma coisa com a outra, que o tinha levado a ser pastor, a ter o mesmo sonho, e estar numa cidade perto da âfrica, e encontrar na praÚa um rei, e ser roubado para conhecer um mercador de cristais, e... "Quanto mais se chega perto do sonho, mais a Lenda Pessoal vai se tornando a verdadeira razÇo de viver", pensou o rapaz. A caravana comeÚou a seguir em direÚÇo ao poente. Viajavam de manhÇ, paravam quando o sol ficava mais forte, e seguiam de novo ao entardecer. O rapaz conversava pouco com o InglËs, que passava a maior parte do tempo entretido pelos livros. EntÇo, passou a observar em silËncio a marcha de animais e homens pelo deserto. Agora tudo era muito diferente do dia em que haviam partido: naquele dia, confusÇo e gritos, choros e crianÚas e relinchar de animais, se misturavam com as ordens nervosas dos guias e dos comerciantes. No deserto, porÊm, havia apenas o vento eterno, o silËncio, e o casco dos animais. Mesmo os guias conversavam pouco entre si. "J cruzei muitas vezes estas areias" ­ disse um cameleiro certa noite. "Mas o deserto Ê tÇo grande, os horizontes ficam tÇo longe, que fazem a gente se sentir pequeno e permanecer em silËncio". O rapaz entendeu o que o cameleiro queria dizer, mesmo sem ter pisado antes num deserto. Todas as vezes que olhava o mar ou o fogo, era capaz de ficar horas em silËncio, sem pensar em nada, mergulhado na imensidÇo e na forÚa dos elementos. "Aprendi com ovelhas e aprendi com cristais", pensou ele. "Posso tambÊm aprender com o deserto. Ele me parece mais velho e mais sÂbio". O vento nÇo parava nunca. O rapaz lembrou-se do dia em que sentiu este mesmo vento, sentado num forte em Tarifa. Talvez ele agora estivesse roÚando de leve pela lÇ de suas ovelhas, que seguiam em busca de alimento e Âgua pelos campos de Andaluzia. "NÇo sÇo mais minhas ovelhas", disse para si mesmo, sem sentir saudades. "Devem ter se acostumado a um novo pastor, e j me esqueceram. Isto Ê bom. Quem est acostumado a viajar, como as ovelhas, sabe que Ê sempre necessÂrio partir um dia". Lembrou-se depois, da filha do comerciante, e teve certeza de que ela j havia casado. Quem sabe com um pipoqueiro, ou com um pastor que tambÊm soubesse ler e contasse histÕrias extraordinÂrias; afinal, ele nÇo devia ser o ßnico. Mas ficou impressionado com o seu pressentimento: talvez ele estivesse aprendendo tambÊm esta histÕria de Linguagem Universal, que sabe o passado e o presente de todos os homens. "Pressentimentos", como sua mÇe costumava dizer. O rapaz comeÚou a entender que os pressentimentos eram os rÂpidos mergulhos que a alma dava nesta corrente Universal de vida, onde a histÕria de todos os homens est ligada entre si, e podemos saber tudo, porque tudo est escrito. "Maktub", disse o rapaz, lembrando-se do Mercador de Cristais. O deserto era Ás vezes feito de areia, e Ás vezes feito de pedra. Se a caravana chegava em frente a uma pedra, ela a contornava; se estavam diante de um rochedo, davam uma longa volta. Se a areia era fina demais para o casco dos camelos, procuravam um lugar onde a areia fosse mais resistente. ás vezes o chÇo estava coberto de sal, no lugar onde um lago devia haver existido. Os animais entÇo se queixavam, e os cameleiros desciam e desatolavam os animais. Depois colocavam as cargas nas prÕprias costas, passavam pelo chÇo traiÚoeiro, e novamente carregavam os animais. Se um guia ficava doente ou morria, os cameleiros lanÚavam a sorte e escolhiam um novo guia. Mas tudo isto acontecia por uma ßnica razÇo: nÇo importava quantas voltas tivesse que dar, a caravana seguia sempre em direÚÇo a um mesmo ponto. Depois de vencidos os obstÂculos, ela voltava de novo sua frente para o astro que indicava a posiÚÇo do oÂsis. Quando as pessoas viam aquele astro brilhando no cÊu pela manhÇ, sabiam que ele indicava um lugar com mulheres, Âgua, t×maras e palmeiras. SÕ o InglËs nÇo percebia aquilo: estava a maior parte do tempo imerso na leitura dos seus livros. O rapaz tambÊm tinha um livro, que havia tentado ler nos primeiros dias de viagem. Mas achava muito mais interessante olhar a caravana e escutar o vento. Assim que aprendeu a conhecer melhor seu camelo e a se afeiÚoar a ele, jogou o livro fora. Era um peso desnecessÂrio, apesar do rapaz haver criado a superstiÚÇo de que toda vez que abria o livro, encontrava alguÊm importante. Terminou fazendo amizade com o cameleiro que viajava sempre ao seu lado. De noite, quando paravam em volta das fogueiras, costumava contar suas aventuras como pastor ao cameleiro. Numa destas conversas o cameleiro comeÚou a falar de sua vida. ­ Eu morava num lugar perto de El Cairum ­ contou. ­ Tinha minha horta, meus filhos e uma vida que nÇo ia mudar atÊ o dia de minha morte. Num ano em que a colheita foi melhor, seguimos todos para Meca, e eu cumpri a ßnica obrigaÚÇo que estava faltando na minha vida. Podia morrer em paz, e gostava disto. "Certo dia a terra comeÚou a tremer, e o Nilo subiu alÊm do seu limite. Aquilo que eu pensava que sÕ acontecia com os outros, terminou acontecendo comigo. Meus vizinhos tiveram medo de perder suas oliveiras com a inundaÚÇo; minha mulher teve receio de que nossos filhos fossem levados pelas Âguas. E eu tive pavor de ver destruÎdo tudo que havia conquistado. "Mas nÇo houve jeito. A terra ficou imprestÂvel e tive que arranjar outro meio de vida. Hoje sou cameleiro. Mas aÎ entendi a palavra de Allah: ninguÊm sente medo do desconhecido, porque qualquer pessoa Ê capaz de conquistar tudo que quer e necessita. "SÕ sentimos medo de perder aquilo que temos, sejam nossas vidas ou nossas plantaÚÈes. Mas este medo passa quando entendemos que nossa histÕria e a histÕria do mundo foram escritas pela mesma MÇo". ás vezes as caravanas se encontravam durante a noite. Sempre uma delas tinha o que a outra estava precisando ­ como se realmente tudo fosse escrito por uma sÕ MÇo. Os cameleiros trocavam informaÚÈes sobre as tempestades de vento, e se reuniam em torno das fogueiras, contando as histÕrias do deserto. Outras vezes chegavam misteriosos homens encapuÚados; eram beduÎnos que espionavam a rota seguida pelas caravanas. Davam notÎcias de assaltantes e tribos bÂrbaras. Chegavam no silËncio e partiam no silËncio, com as roupas negras deixando apenas os olhos de fora. Numa destas noites o cameleiro veio atÊ a fogueira onde o rapaz e o InglËs estavam sentados. ­ H rumores de guerra entre os clÇs ­ disse o cameleiro. Os trËs ficaram quietos. O rapaz notou que havia medo no ar, mesmo que ninguÊm tivesse dito nenhuma palavra. Mais uma vez estava percebendo a linguagem sem palavras, a Linguagem Universal. Depois de certo tempo, o InglËs perguntou se havia perigo. ­ Quem entra no deserto nÇo pode voltar ­ disse o cameleiro. ­ Quando nÇo se pode voltar, sÕ devemos ficar preocupado com a melhor maneira de seguir em frente. O resto Ê por conta de Allah, inclusive o perigo. E concluiu dizendo a misteriosa palavra: "Maktub". ­ VocË precisa prestar mais atenÚÇo Ás caravanas ­ disse o rapaz ao InglËs, depois que o cameleiro saiu. ­ Elas dÇo muitas voltas, mas rumam sempre para o mesmo lugar. ­ E vocË devia ler mais sobre o mundo ­ respondeu o InglËs. ­ Os livros sÇo iguais Ás caravanas. O imenso grupo de homens e animais comeÚou a andar mais rÂpido. AlÊm do silËncio durante o dia, as noites ­ quando as pessoas costumavam se reunir para conversar em torno das fogueiras ­ comeÚaram a ficar tambÊm silenciosas. Certo dia o LÎder da Caravana decidiu que nem fogueiras podiam mais ser acesas, para nÇo chamar a atenÚÇo sobre a caravana. Os viajantes passaram a fazer uma roda de animais, e dormiam todos juntos no centro, tentando se proteger do frio noturno. O LÎder passou a instalar sentinelas armadas em volta do grupo. Numa daquelas noites o InglËs nÇo conseguiu dormir. Chamou o rapaz e comeÚaram a passear pelas dunas em volta do acampamento. Era uma noite de lua cheia, e o rapaz contou ao InglËs toda a sua histÕria. O InglËs ficou fascinado com a loja que havia progredido depois que o rapaz comeÚou a trabalhar nela. ­ Este Ê o princÎpio que move todas as coisas ­ disse. ­ Na Alquimia Ê chamado de Alma do Mundo. Quando vocË deseja algo de todo o seu coraÚÇo, vocË est mais prÕximo da Alma do Mundo. Ela Ê sempre uma forÚa positiva. Disse tambÊm que isto nÇo era apenas um dom dos homens: todas as coisas sobre a face da Terra tinham tambÊm uma alma, nÇo importando se era mineral, vegetal, animal, ou apenas um simples pensamento. ­ Tudo que est sob e sobre a face da Terra se transforma sempre, porque a Terra est viva; e tem uma alma. Somos parte desta Alma, e raramente sabemos que ela sempre trabalha em nosso favor. Mas vocË deve entender que, na loja dos cristais, atÊ mesmo os vasos estavam colaborando para o seu sucesso. O rapaz ficou em silËncio por algum tempo, olhando a lua e a areia branca. ­ Tenho visto a caravana caminhando atravÊs do deserto ­ disse, por fim. ­ Ela e o deserto falam a mesma lÎngua, e por isso ele permite que ela o atravesse. Vai testar cada passo seu, para ver se est em perfeita sintonia com ele; e se estiver, ela chegar atÊ o oÂsis. "Se um de nÕs chegasse aqui com muita coragem, mas sem entender esta lÎngua, ia morrer no primeiro dia." Continuaram olhando a lua, juntos. ­ Esta Ê a magia dos sinais ­ continuou o rapaz. ­ Tenho visto como os guias lËem os sinais do deserto, e como a alma da caravana conversa com a alma do deserto. Depois de algum tempo, foi a vez do InglËs falar. ­ Preciso prestar mais atenÚÇo Á caravana ­ disse, por fim. ­ E eu preciso ler seus livros ­ falou o rapaz. Eram livros estranhos. Falavam em mercßrio, sal, dragÈes e reis, mas ele nÇo conseguia entender nada. Entretanto, havia uma idÊia que parecia repetida em quase todos os livros: todas as coisas eram manifestaÚÈes de uma coisa sÕ. Num dos livros ele descobriu que o texto mais importante da Alquimia tinha apenas poucas linhas, e havia sido escrito numa simples esmeralda. ­ ê a TÂboa da Esmeralda ­ falou o InglËs, orgulhoso por ensinar alguma coisa ao rapaz. ­ E entÇo, para que tantos livros? ­ Para entender estas linhas ­ respondeu o InglËs, sem estar muito convencido da prÕpria resposta. O livro que mais interessou ao rapaz contava a histÕria dos alquimistas famosos. Eram homens que tinham dedicado sua vida inteira a purificar metais nos laboratÕrios; acreditavam que se um metal fosse cozinhado durante muitos e muitos anos, terminaria se libertando de todas as suas propriedades individuais, e em seu lugar sobrava apenas a Alma do Mundo. Esta Coisa ÿnica permitia que os alquimistas entendessem qualquer coisa sobre a face da Terra, porque ela era a linguagem pela qual as coisas se comunicavam. Eles chamavam esta descoberta de Grande Obra ­ que era composta de uma parte lÎquida e uma parte sÕlida. ­ NÇo basta observar os homens e os sinais, para se descobrir esta linguagem? ­ perguntou o rapaz. ­ VocË tem mania de simplificar tudo ­ respondeu o InglËs irritado. ­ A Alquimia Ê um trabalho sÊrio. Precisa que cada passo seja seguido exatamente como os mestres ensinaram. O rapaz descobriu que a parte lÎquida da Grande Obra era chamada de Elixir da Longa Vida, e curava todas as doenÚas, alÊm de evitar que o alquimista ficasse velho. E a parte sÕlida era camada de Pedra Filosofal. ­ NÇo Ê fÂcil descobrir a Pedra Filosofal ­ disse o InglËs. ­ Os alquimistas ficavam muitos anos nos laboratÕrios, olhando aquele fogo que purificava os metais. Olhavam tanto o fogo, que aos poucos suas cabeÚas iam perdendo todas as vaidades do mundo. EntÇo, um belo dia, descobriam que a purificaÚÇo dos metais havia terminado por purificar a eles mesmos. O rapaz se lembrou do Mercador de Cristais. Ele havia falado que tinha sido bom limpar seus vasos, para que ambos se libertassem tambÊm dos maus pensamentos. Estava cada vez mais convencido de que a Alquimia poderia ser aprendida na vida diÂria. ­ AlÊm disso ­ falou o InglËs ­ a Pedra Filosofal tem uma propriedade fascinante. Uma pequena lasca dela Ê capaz de transformar grandes quantidades de metal em ouro. A partir desta frase, o rapaz ficou interessadÎssimo em Alquimia. Pensava que, com um pouco de paciËncia, poderia transformar tudo em ouro. Leu a vida de vÂrias pessoas que tinham conseguido: Helvetius, Elias, Fulcanelli, Geber. Eram histÕrias fascinantes: todos estavam vivendo atÊ o fim sua Lenda Pessoal. Viajavam, encontravam sÂbios, faziam milagres na frente dos incrÊdulos, possuÎam a Pedra Filosofal e o Elixir da Longa Vida. Mas quando queria aprender a maneira de conseguir a Grande Obra, ficava completamente perdido. Eram apenas desenhos, instruÚÈes em cÕdigo, textos obscuros. ­ Por que eles falam tÇo difÎcil? ­ perguntou certa noite ao InglËs. Notou tambÊm que o InglËs andava meio aborrecido e sentindo falta de seus livros. ­ Para que sÕ os que tËm responsabilidade de entender que entendam ­ disse ele. ­ Imagine se todo mundo saÎsse transformando chumbo em ouro. Daqui a pouco o ouro nÇo ia valer nada. "SÕ os persistentes, sÕ aqueles que pesquisam muito, Ê que conseguem a Grande Obra. Por isso estou no meio deste deserto. Para encontrar um verdadeiro Alquimista, que me ajude a decifrar os cÕdigos". ­ Quando foram escritos estes livros? ­ perguntou o rapaz. ­ H muitos sÊculos atrÂs. ­ Naquela Êpoca nÇo havia imprensa ­ insistiu o rapaz. NÇo havia jeito de todo mundo tomar conhecimento da Alquimia. Por que esta linguagem tÇo estranha, cheia de desenhos? O InglËs nÇo respondeu nada. Disse que h vÂrios dias estava prestando atenÚÇo Á caravana, e que nÇo conseguia descobrir nada de novo. A ßnica coisa que tinha notado era que os comentÂrios sobre a guerra aumentavam cada vez mais. Um belo dia o rapaz entregou de volta os livros ao InglËs. ­ EntÇo, aprendeu muita coisa? ­ perguntou o outro, cheio de expectativa. Estava precisando de alguÊm com quem pudesse conversar para esquecer o medo da guerra. ­ Aprendi que o mundo tem uma Alma, e quem entender esta Alma, entender a linguagem das coisas. Aprendi que muitos alquimistas viveram sua Lenda Pessoal e terminaram descobrindo a Alma do Mundo, a Pedra Filosofal, o Elixir. "Mas, sobretudo, aprendi que estas coisas sÇo tÇo simples que podem ser escritas numa esmeralda". O InglËs ficou decepcionado. Os anos de estudo, os sÎmbolos mÂgicos, as palavras difÎceis, os aparelhos de laboratÕrio, nada disso havia impressionado o rapaz. "Ele deve ter uma alma primitiva demais para compreender isto", apensou. Pegou seus livros e guardou nos sacos que pendiam do camelo. ­ Volte para sua caravana ­ disse. ­ Ela tampouco me ensinou qualquer coisa. O rapaz voltou a contemplar o silËncio do deserto e a areia levantada pelos animais. "Cada um tem sua maneira de aprender", repetia consigo mesmo. "A maneira dele nÇo Ê a minha, e minha maneira nÇo Ê a dele. Mas ambos estamos em busca de nossa Lenda Pessoal, e eu o respeito por isto". A caravana comeÚou a viajar dia e noite . A toda hora apareciam os mensageiros encapuÚados, e o cameleiro ­ que haviam se tornado amigo do rapaz ­ explicou que a guerra entre os clÇs havia comeÚado. Teriam muita sorte se conseguissem chegar ao oÂsis. Os animais estavam exaustos, e os homens cada vez mais silenciosos. O silËncio era mais terrÎvel na parte da noite, quando um simples relincho de camelo ­ que antes nÇo passava de um relincho de camelo ­ agora assustava a todos e podia ser um sinal de invasÇo. O cameleiro, porÊm, parecia nÇo se impressionar muito com a ameaÚa de guerra. ­ Estou vivo ­ disse ao rapaz, enquanto comia um prato de t×maras na noite sem fogueiras e sem lua. ­ Enquanto estou comendo, nÇo faÚo nada alÊm de comer. Se estiver caminhando, apenas caminharei. Se tiver que lutar, ser um dia tÇo bom para morrer como qualquer outro. "Porque nÇo vivo nem no meu passado, nem no meu futuro. Tenho apenas o presente, e ele Ê o que me interessa. Se vocË puder permanecer sempre no presente, entÇo ser um homem feliz. Vai perceber que no deserto existe vida, que o cÊu tem estrelas, e que os guerreiros lutam porque isto faz parte da raÚa humana. A vida ser uma festa, um grande festival, porque ela Ê sempre e apenas o momento que estamos vivendo." Duas noites depois, quando se preparava para dormir, o rapaz olhou em direÚÇo ao astro que seguiam durante a noite. Achou que o horizonte estava um pouco mais baixo, porque em cima do deserto haviam centenas de estrelas. ­ ê o oÂsis ­ disse o cameleiro. ­ E porque nÇo chegamos l imediatamente? ­ Porque precisamos dormir. O rapaz abriu os olhos quando o sol comeÚava a surgir no horizonte. Diante dele, onde as pequenas estrelas haviam estado durante a noite, estendia-se uma fila interminÂvel de tamareiras, cobrindo toda a frente do deserto. ­ Conseguimos! ­ disse o InglËs, que tambÊm tinha acabado de acordar. O rapaz, porÊm, mantinha-se calado. Aprendera o silËncio do deserto, e contentava-se em olhar as tamareiras na sua frente. Ainda tinha que caminhar muito para chegar atÊ as Pir×mides, e algum dia aquela manhÇ seria apenas uma lembranÚa. Mas agora ela era o momento presente, a festa da qual havia falado o cameleiro, e ele estava procurando vivË-lo com as liÚÈes do seu passado e os sonhos do seu futuro. Um dia, aquela visÇo de milhares de tamareiras seria apenas uma lembranÚa. Mas para ele, neste momento, significava sombra, Âgua, e um refßgio para a guerra. Assim como um relincho de camelo podia se transformar em perigo, uma fila de tamareiras podia significar um milagre. "O mundo fala muitas linguagens", pensou o rapaz. "Quando os tempos andam depressa, as caravanas correm tambÊm", pensou o Alquimista, enquanto via chegar centenas de pessoas e animais ao OÂsis. As pessoas gritavam atrÂs dos recÊm-chegados, a poeira encobria o sol do deserto, e as crianÚas pulavam de excitaÚÇo ao ver os estranhos. O Alquimista percebeu os chefes tribais se aproximarem do LÎder da Caravana, e conversarem longamente entre si. Mas nada daquilo interessava ao Alquimista. J havia visto muita gente chegar e partir, enquanto o OÂsis e o deserto permaneciam o mesmo. Tinha visto reis e mendigos pisando aquelas areias que sempre mudavam de forma por causa do vento, mas que eram as mesmas que havia conhecido quando crianÚa. Mesmo assim, nÇo conseguia conter no fundo do seu coraÚÇo um pouco da alegria de vida que todo viajante experimentava quando, depois de terra amarela e cÊu azul, o verde das tamareiras aparecia diante de seus olhos. "Talvez Deus tenha criado o deserto para que o homem pudesse sorrir com as tamareiras", pensou ele. Depois resolveu concentrar-se em assuntos mais prÂticos. Sabia que naquela caravana vinha o homem a quem devia ensinar parte de seus segredos. Os sinais lhe haviam contado isto. Ainda nÇo conhecia este homem, mas seus olhos experimentados o reconheceriam quando o visse. Esperava que fosse alguÊm tÇo capaz como seu aprendiz anterior. "NÇo sei porque estas coisas tem que ser transmitidas de boca para ouvido", pensava ele. NÇo era exatamente porque as coisas eram secretas; Deus revelava prodigamente seus segredos a todas as criaturas. Ele sÕ conhecia uma explicaÚÇo para este fato: as coisas tinham que ser transmitidas assim porque elas seriam feitas de Vida Pura, e este tipo de vida dificilmente consegue ser capturado em pinturas ou palavras. Porque as pessoas se fascinam com pinturas e palavras, e terminam se esquecendo da Linguagem do Mundo. Os recÊm-chegados foram trazidos imediatamente Á presenÚa dos chefes tribais de Al-Fayoum. O rapaz nÇo podia acreditar no que estava vendo: ao invÊs de um poÚo cercado de algumas palmeiras ­ como havia lido certa vez num livro de histÕria ­ o oÂsis era muito maior do que vÂrias aldeias da Espanha. Tinha trezentos poÚos, cinqØenta mil tamareiras, e muitas tendas coloridas espalhadas entre elas. ­ Parece as Mil e Uma Noites ­ disse o InglËs, impaciente para encontrar-se logo com o Alquimista. Foram cercados logo pelas crianÚas, que olhavam curiosas os animais, os camelos, e as pessoas que chegavam. Os homens queriam saber se tinham visto algum combate, e as mulheres disputavam entre si os tecidos e pedras que os mercadores haviam trazido. O silËncio do deserto parecia um sonho distante; as pessoas falavam sem parar, riam e gritavam, como se tivessem saÎdo de um mundo espiritual, para estarem de novo entre os homens. Estavam contentes e felizes. Apesar das precauÚÈes do dia anterior, o cameleiro explicou ao rapaz que os oÂsis no deserto eram sempre considerados terrenos neutros, porque a maior parte dos habitantes eram mulheres e crianÚas. E haviam oÂsis tanto de um lado como de outro; assim, os guerreiros iam lutar do deserto, e deixavam os oÂsis como cidades de refßgio. O LÎder da Caravana reuniu todos com uma certa dificuldade, e comeÚou a dar as instruÚÈes. Iam permanecer ali atÊ que a guerra entre os clÇs tivesse terminada. Como eram visitantes, deviam compartilhar as tendas com habitantes do oÂsis, que lhes dariam seus melhores lugares. Era a hospitalidade da Lei. Depois pediu que todos, inclusive seus prÕprios sentinelas, entregassem as armas aos homens indicados pelos chefes tribais. ­ SÇo as regras da Guerra ­ explicou o LÎder da Caravana. Desta maneira, os oÂsis nÇo poderiam abrigar exÊrcitos ou guerreiros. Para surpresa do rapaz, o InglËs tirou de seu casaco um revÕlver cromado e entregou ao homem que recolhia as armas. ­ Para que um revÕlver? ­ perguntou. ­ Para aprender a confiar nos homens ­ respondeu o InglËs. Estava contente por haver chegado ao final de sua busca. O rapaz, porÊm, pensava em seu tesouro. Quanto mais perto ele ficava de seu sonho, mais as coisas se tornavam difÎceis. NÇo funcionava mais aquilo que o velho rei havia chamado de "sorte de principiante". O que funcionava, sabia ele, era o teste da persistËncia e da coragem de quem busca sua Lenda Pessoal. Por isso ele nÇo podia se apressar, nem ficar impaciente. Se agisse assim, ia terminar sem ver os sinais que Deus havia posto no seu caminho. "Deus colocou no meu caminho", pensou o rapaz, surpreso consigo mesmo. AtÊ aquele momento considerava os sinais como uma coisa do mundo. Algo como comer ou dormir, algo como procurar um amor, ou conseguir um emprego. Nunca tinha pensado que esta era uma linguagem que Deus estava usando para mostrar-lhe o que devia fazer. "NÇo fique impaciente", repetiu o rapaz para si mesmo. "Como disse o cameleiro, coma na hora de comer. E caminhe na hora de caminhar". No primeiro dia todos dormiram de cansaÚo, inclusive o InglËs. O rapaz havia ficado longe dele, numa tenda com outros cinco rapazes de idade quase igual a sua. Eram gente do deserto, e queriam saber histÕrias das grandes cidades. O rapaz falou de sua vida como pastor, e ia comeÚar a contar sua experiËncia na loja de cristais, quando o InglËs entrou na tenda. ­ Procurei-o a manhÇ inteira ­ disse, enquanto carregava o rapaz para fora. ­ Preciso que me ajude a descobrir onde mora o Alquimista. Primeiro os dois tentaram encontrar sozinhos. Um Alquimista devia viver de maneira diferente das outras pessoas do oÂsis, e em sua tenda era muito provÂvel que um forno estivesse sempre aceso. Andaram bastante, atÊ ficarem convencidos que o oÂsis era muito maior do que podiam imaginar, e com muitas centenas de tendas. ­ Perdemos quase o dia inteiro ­ disse o InglËs, sentando-se com o rapaz perto de um dos poÚos do oÂsis. ­ Talvez seja melhor perguntarmos ­ disse o rapaz. O InglËs nÇo queria contar aos outros sua presenÚa no OÂsis, e ficou bastante indeciso. Mas acabou concordando e pediu ao rapaz, que falava melhor o Ârabe, para fazer isto. O rapaz se aproximou de uma mulher que havia chegado no poÚo para encher de Âgua um saco de pele de carneiro. ­ Boa tarde, senhora. Gostaria de saber onde vive um Alquimista neste oÂsis ­ perguntou o rapaz. A mulher disse que jamais havia ouvido falar disso, e foi imediatamente embora. Antes, porÊm, avisou ao rapaz que nÇo deveria conversar com mulheres vestidas de preto, porque eram mulheres casadas. Ele tinha que respeitar a TradiÚÇo. O InglËs ficou decepcionadÎssimo. Tinha feito toda a sua viagem por nada. O rapaz tambÊm ficou triste; seu companheiro tambÊm estava em busca de sua Lenda Pessoal. E quando alguÊm faz isto, o Universo todo se esforÚa para que a pessoa consiga o que deseja, dissera o velho rei. Ele nÇo podia estar enganado. ­ Eu nunca tinha ouvido falar antes de alquimistas ­ disse o rapaz. ­ SenÇo tentaria ajudÂ-lo. Alguma coisa brilhou nos olhos do InglËs. ­ ê isto! Talvez ninguÊm aqui saiba o que Ê um alquimista! Pergunte pelo homem que cura todas as doenÚas da aldeia! VÂrias mulheres vestidas de preto vieram buscar Âgua no poÚo, e o rapaz nÇo conversou com elas, por mais que o InglËs insistisse. AtÊ que um homem se aproximou. ­ Conhece alguÊm que cura as doenÚas da aldeia? ­ perguntou o rapaz. ­ Allah cura todas as doenÚas, ­ disse o homem, visivelmente apavorado com os estrangeiros. ­ VocËs estÇo em busca de bruxos. E depois de dizer alguns versÎculos do AlcorÇo, seguiu seu caminho. Um outro homem se aproximou. Era mais velho, e trazia apenas um pequeno balde. O rapaz repetiu a pergunta. ­ Por que vocËs querem conhecer este tipo de homem? ­ respondeu o Ârabe com outra pergunta. ­ Porque meu amigo viajou muitos meses para encontrÂ-lo ­ disse o rapaz. ­ Se este homem existe no oÂsis, deve ser muito poderoso ­ disse o velho, depois de pensar por alguns instantes. ­ Nem os chefes tribais conseguiriam vË-lo quando precisam. SÕ quando ele assim determinasse. "Esperem o final da guerra. E entÇo partam com a caravana. NÇo procurem entrar na vida do oÂsis", concluiu, se afastando. Mas o InglËs ficou exultante. Estavam na pista certa. Finalmente surgiu uma moÚa que nÇo estava vestida de negro. Trazia um c×ntaro no ombro, e a cabeÚa coberta com um vÊu, mas tinha o rosto descoberto. O rapaz aproximou-se para perguntar sobre o Alquimista. EntÇo foi como se o tempo parasse, e a Alma do Mundo surgisse com toda a forÚa diante do rapaz. Quando ele olhou seus olhos negros, seus lÂbios indecisos entre um sorriso e o silËncio, ele entendeu a parte mais importante e mais sÂbia da Linguagem que o mundo falava, e que todas as pessoas da terra eram capazes de entender em seus coraÚÈes. E isto era chamado de Amor, uma coisa mais antiga que os homens e que o prÕprio deserto, e que no entanto ressurgia sempre com a mesma forÚa onde quer que dois pares de olhos se cruzassem como se cruzaram aqueles dois pares de olhos diante de um poÚo. Os lÂbios finalmente resolveram dar um sorriso, e aquilo era um sinal, o sinal que ele esperou sem saber durante tanto tempo em sua vida, que tinha buscado nas ovelhas e nos livros, nos cristais e no silËncio do deserto. Ali estava a pura linguagem do mundo, sem explicaÚÈes, porque o Universo nÇo precisava de explicaÚÈes para continuar seu caminho no espaÚo sem fim. Tudo o que o rapaz entendia naquele momento era que estava diante da mulher de sua vida, e sem nenhuma necessidade de palavras, ela devia saber disto tambÊm. Tinha mais certeza disto do que de qualquer coisa no mundo, mesmo que seus pais, e os pais de seus pais dissessem que era preciso namorar, noivar, conhecer a pessoa e ter dinheiro antes de se casar. Quem dizia isto talvez jamais tivesse conhecido a linguagem universal, porque quando se mergulha nela, Ê fÂcil entender que sempre existe no mundo uma pessoa que espera a outra, seja no meio de um deserto, seja no meio das grandes cidades. E quando estas pessoas se cruzam, e seus olhos se encontram, todo o passado e todo o futuro perde qualquer import×ncia, e sÕ existe aquele momento, e aquela certeza incrÎvel de que todas as coisas debaixo do sol foram escritas pela mesma MÇo. A MÇo que desperta o Amor, e que fez uma alma gËmea para cada pessoa que trabalha, descansa e busca tesouros debaixo do sol. Porque sem isto nÇo haveria qualquer sentido para os sonhos da raÚa humana. "Maktub", pensou o rapaz. O InglËs levantou-se de onde estava sentado e sacudiu o rapaz. ­ Vamos, pergunte a ela! O rapaz se aproximou da moÚa. Ela tornou a sorrir. Ele sorriu tambÊm. ­ Como vocË se chama? ­ perguntou. ­ Me chamo FÂtima ­ disse a moÚa, olhando para o chÇo. ­ ê um nome que algumas mulheres tem na terra de onde venho. ­ ê o nome da filha do Profeta ­ disse FÂtima. ­ Os guerreiros os levaram para lÂ. A moÚa delicada falava de guerreiros com orgulho. Ao seu lado o InglËs insistia, e o rapaz perguntou pelo homem que curava todas as doenÚas. ­ ê um homem que conhece os segredos do mundo. Conversa com os djins do deserto ­ ela falou. Os djins eram os demÆnios. E a moÚa apontou para o sul, para o lugar onde aquele estranho homem morava. Depois encheu seu c×ntaro e partiu. O InglËs partiu tambÊm, em busca do Alquimista. E o rapaz ficou por muito tempo sentado ao lado do poÚo, entendendo que algum dia o Levante havia deixado em seu rosto o perfume daquela mulher, e que j a amava antes mesmo de saber que ela existia, e que seu amor por ela faria com que encontrasse todos os tesouros do mundo. No dia seguinte o rapaz voltou para o poÚo, para esperar a moÚa. Para sua surpresa, encontrou l o InglËs, olhando pela primeira vez o deserto. ­ Esperei a tarde e a noite ­ disse o InglËs. ­ Ele chegou junto com as primeiras estrelas. Eu lhe contei o que estava procurando. EntÇo ele me perguntou se j havia transformado chumbo em ouro. Eu disse que era isto que queria aprender. "Ele me mandou tentar. Foi tudo que me disse: v tentar". O rapaz ficou quieto. O InglËs havia viajado tanto para ouvir o que j sabia. AÎ ele se lembrou de que tinha dado seis ovelhas ao velho rei pela mesma razÇo. ­ EntÇo tente ­ disse para o InglËs. ­ ê isto que vou fazer. E vou comeÚar agora. Pouco depois que o InglËs saiu, FÂtima chegou para apanhar Âgua com seu c×ntaro. ­ Vim dizer-lhe uma coisa simples ­ falou o rapaz. ­ Eu quero que vocË seja minha mulher. Eu te amo. A moÚa deixou que seu c×ntaro derramasse a Âgua. ­ Vou esperÂ-la todos os dias aqui. Cruzei o deserto em busca de um tesouro que se encontra perto das pir×mides. A guerra foi para mim uma maldiÚÇo. Agora ela Ê uma bËnÚÇo, porque me deixa perto de vocË. ­ A guerra um dia vai acabar ­ disse a moÚa. O rapaz olhou as tamareiras do oÂsis. Havia sido pastor. E ali existiam muitas ovelhas. FÂtima era mais importante que o tesouro. ­ Os guerreiros buscam seus tesouros ­ disse a moÚa, como se estivesse adivinhando o pensamento do rapaz. ­ E as mulheres do deserto tËm orgulho dos seus guerreiros. Depois tornou a encher seu c×ntaro, e foi embora. Todos os dias o rapaz ia para o poÚo esperar FÂtima. Contou-lhe de sua vida de pastor, do rei, da loja de cristais. Ficaram amigos, e com exceÚÇo quinze minutos que passava com ela, o resto do dia custava infinitamente a passar. Quando j estava h quase um mËs no oÂsis, o LÎder da Caravana convocou a todos para uma reuniÇo. ­ NÇo sabemos quando a guerra vai acabar, e nÇo podemos seguir viagem ­ disse. ­ Os combates devem durar por muito tempo, talvez muitos anos. Existem guerreiros fortes e valentes de ambos os lados, e existe a honra de combater em ambos os exÊrcitos. NÇo Ê uma guerra entre bons e maus. ê uma guerra entre forÚas que lutam pelo mesmo poder, e quando este tipo de batalha comeÚa, demora mais que as outras ­ porque Allah est dos dois lados. As pessoas se dispersaram. O rapaz tornou a encontrar-se com FÂtima aquela tarde, e contou da reuniÇo. ­ No segundo dia que nos encontramos ­ disse FÂtima ­ vocË me falou do seu amor. Depois me ensinou coisas belas, como a Linguagem e a Alma do Mundo. Tudo isto me faz aos poucos ser parte de vocË. O rapaz ouvia sua voz, e achava mais bela que o barulho do vento nas folhas das tamareiras. ­ Faz muito tempo, que estive aqui neste poÚo esperando por vocË. NÇo consigo me lembrar do meu passado, da TradiÚÇo, da maneira que os homens esperam que se comportem as mulheres do deserto. Desde crianÚa eu sonhava que o deserto ia me trazer o maior presente de minha vida. Este presente chegou afinal, e Ê vocË. O rapaz pensou em tocar sua mÇo. Mas FÂtima segurava as alÚas do c×ntaro. ­ VocË me falou dos seus sonhos, do velho rei, e do tesouro. VocË me falou dos sinais. EntÇo nÇo tenho medo de nada, porque foram estes sinais que me trouxeram vocË. E eu sou parte do seu sonho, da sua Lenda Pessoal, como vocË costuma chamar. "Por isso quero que siga em direÚÇo ao que veio buscar. Se tiver que esperar o final da guerra, muito bem. Mas se tiver que seguir antes, v em direÚÇo Á sua lenda. As dunas mudam com o vento, mas o deserto permanece no mesmo. Assim ser com nosso amor. "Maktub" ­ disse. "Se eu for parte de sua Lenda, vocË voltar um dia". O rapaz saiu triste do encontro com FÂtima. Ele se lembrava de muita gente que havia conhecido. Os pastores casados tinham muita dificuldade em convencer suas esposas de que precisavam andar pelos campos. O amor exigia estar junto da pessoa amada. No dia seguinte ele contou tudo isto Á FÂtima. ­ O deserto leva nossos homens e nem sempre os traz de volta ­ disse ela. ­ EntÇo nos acostumamos com isto. E eles passam a existir nas nuvens sem chuva, nos animais que se escondem entre as pedras, na Âgua que sai generosa da terra. Eles passam a fazer parte de tudo, passam a ser a Alma do Mundo. "Alguns retornam. E entÇo todas as outras mulheres ficam felizes, porque os homens que elas esperam tambÊm podem voltar um dia. Antes eu olhava estas mulheres, e invejava sua felicidade. Agora vou ter tambÊm uma pessoa para esperar. "Sou uma mulher do deserto e me orgulho disto. Quero que meu homem tambÊm caminhe livre como o vento que move as dunas. Quero tambÊm poder ver meu homem nas nuvens, nos animais e na Âgua." O rapaz foi procurar o InglËs. Queria contar-lhe sobre FÂtima. Ficou surpreso quando viu que o InglËs havia construÎdo um pequeno forno ao lado de sua tenda. Era um forno estranho, com um frasco transparente em cima. O InglËs alimentava o fogo com lenha, e olhava o deserto. Seus olhos pareciam ter mais brilho quando passava o tempo todo lendo livros. ­ Esta Ê a primeira fase do trabalho ­ disse o InglËs. ­ Tenho que separar o enxofre impuro. Para isto, nao posso ter medo de falhar. O meu medo de falhar foi que me impediu de tentar a Grande Obra atÊ hoje. ê agora que estou comeÚando o que podia ter comeÚado h dez anos atrÂs. Mas me sinto feliz de nÇo ter esperado vinte anos para isto. E continuou a alimentar o fogo e a olhar o deserto. O rapaz ficou ao seu lado por algum tempo, atÊ que o deserto comeÚou a ficar rosado com a luz do entardecer. EntÇo ele sentiu uma imensa vontade de ir atÊ lÂ, para ver se o silËncio conseguia responder suas perguntas. Caminhou sem destino por algum tempo, mantendo as tamareiras do oÂsis ao alcance de seus olhos. Escutava o vento, e sentia as pedras sob seus pÊs. ás vezes encontrava alguma concha, e sabia que aquele deserto, num tempo remoto, havia sido um grande mar. Depois sentou-se numa pedra e deixou-se hipnotizar pelo horizonte que existia na sua frente. NÇo conseguia entender o Amor sem o sentimento de posse; mas FÂtima era uma mulher do deserto, e se alguÊm podia lhe ensinar isto, era o deserto. Ficou assim, sem pensar em nada, atÊ que pressentiu um movimento sobre sua cabeÚa. Olhando para o cÊu, viu que eram dois gaviÈes, voando muito alto. O rapaz comeÚou a olhar os gaviÈes, e os desenhos que eles faziam no cÊu. Parecia uma coisa desordenada, entretanto, tinham algum sentido para o rapaz. Apenas nÇo conseguia compreender seu significado. Decidiu entÇo que devia acompanhar com os olhos o movimento dos pÂssaros, e talvez pudesse ler alguma coisa. Talvez o deserto pudesse lhe explicar o amor sem posse. ComeÚou a sentir sono. Seu coraÚÇo pediu para que nÇo dormisse: ao invÊs disto, devia se entregar. "Estava penetrando na Linguagem do Mundo, e tudo nesta terra faz sentido, atÊ mesmo o vÆo de gaviÈes", disse. E aproveitou para agradecer pelo fato de estar cheio de amor por uma mulher. "Quando se ama, as coisas fazem ainda mais sentido", pensou. De repente, um gaviÇo deu um rÂpido mergulho no cÊu e atacou o outro. Quando fez este movimento, o rapaz teve uma sßbita e rÂpida visÇo: um exÊrcito, de espadas desembainhadas, entrando no oÂsis. A visÇo logo sumiu, mas aquilo lhe deixou sobressaltado. Havia ouvido falar das miragens, e j havia visto algumas: eram desejos que se materializavam sobre a areia do deserto. Entretanto, ele nÇo desejava um exÊrcito invadindo o oÂsis. Pensou em esquecer aquilo e voltar Á sua meditaÚÇo. Tentou novamente concentrar-se no deserto cÆr-de-rosa e nas pedras. Mas alguma coisa em seu coraÚÇo nÇo o deixava quieto. "Siga sempre os sinais", dissera o velho rei. E o rapaz pensou em FÂtima. Lembrou-se do que havia visto, e pressentiu que estava prÕximo de acontecer. Com muita dificuldade, saiu do transe em que havia entrado. Levantou-se, e comeÚou a caminhar em direÚÇo Ás tamareiras. Mais uma vez percebia as muitas linguagens das coisas: desta vez, o deserto era seguro, e o oÂsis se transformara em perigo. O cameleiro estava sentado aos pÊs de uma tamareira, tambÊm olhando o pÆr-do-sol. Viu quando o rapaz surgiu por detrÂs de uma das dunas. ­ Um exÊrcito se aproxima ­ disse. ­ Tive uma visÇo. ­ O deserto enche de visÈes o coraÚÇo de um homem ­ respondeu o cameleiro. Mas o rapaz lhe contou dos gaviÈes: estava olhando seu vÆo quando tinha mergulhado de repente na Alma do Mundo. O cameleiro ficou quieto; entendia o que o rapaz estava falando. Sabia que qualquer coisa na face da terra pode contar a histÕria de todas as coisas. Se abrisse um livro em qualquer pÂgina, ou olhasse as mÇos das pessoas, ou cartas de baralho, ou vÆo dos pÂssaros, ou seja l o que fosse, qualquer pessoa iria encontrar um laÚo com a coisa que estava vivendo. Na verdade, nÇo eram as coisas que mostravam nada; eram as pessoas que, olhando para as coisas, descobriam a maneira de penetrar na Alma do Mundo. O deserto estava cheio de homens que ganhavam a vida porque podiam penetrar com facilidade na Alma do Mundo. Eram conhecidos por Adivinhos, e temidos por mulheres e velhos. Os Guerreiros raramente os consultavam, porque era impossÎvel entrar numa batalha sabendo quando se vai morrer. Os Guerreiros preferiam o sabor da luta e a emoÚÇo do desconhecido; o futuro havia sido escrito por Allah, e o que quer que Ele tivesse escrito, era sempre para o bem do homem. EntÇo os Guerreiros viviam apenas o presente, porque o presente era cheio de surpresas, e eles tinham que prestar atenÚÇo em muitas coisas: onde estava a espada do inimigo, onde estava seu cavalo, qual o prÕximo golpe que devia desferir para salvar a vida. O cameleiro nÇo era Guerreiro, e j havia consultado alguns adivinhos. Muitos disseram coisas certas, outros disseram coisas erradas. AtÊ que um deles, o mais velho (e o mais temido), perguntou porque o cameleiro estava tÇo interessado em saber o futuro. ­ Para que possa fazer as coisas ­ respondeu o cameleiro. ­ E mudar o que nÇo gostaria que acontecesse. ­ EntÇo deixar de ser seu futuro ­ respondeu o adivinho. ­ Talvez entÇo eu queira saber o futuro para me preparar para as coisas que virÇo. ­ Se forem coisas boas, isto ser uma agradÂvel surpresa ­ disse o adivinho. ­ Se forem coisas ruins, vocË estar sofrendo muito antes delas acontecerem. ­ Quero saber o futuro porque sou um homem ­ disse o cameleiro para o adivinho. E os homens vivem em funÚÇo do seu futuro. O adivinho ficou quieto por algum tempo. Ele era especialista no jogo de varetas, que eram atiradas no chÇo e interpretadas da maneira que caÎam. Naquele dia ele nÇo jogou as varetas. Envolveu-as num lenÚo e tornou a colocar no bolso. ­ Ganho a vida adivinhando o futuro das pessoas ­ disse ele. ­ ConheÚo a ciËncia das varetas, e sei como utilizÂ-la para penetrar neste espaÚo onde tudo est escrito. Ali posso ler o passado, descobrir o que j foi esquecido, e entender os sinais do presente. "Quando as pessoas me consultam, eu nÇo estou lendo o futuro; estou adivinhando o futuro. Porque o futuro pertence a Deus, e ele sÕ o revela em circunst×ncias extraordinÂrias. E como consigo adivinhar o futuro? Pelos sinais do presente. No presente Ê que est o segredo; se vocË prestar atenÚÇo no presente, poder melhorÂ-lo. E se vocË melhorar o presente, o que acontecer depois tambÊm ser melhor. EsqueÚa o futuro e viva cada dia de sua vida nos ensinamentos da Lei, e na confianÚa de que Deus cuida dos seus filhos. Cada dia traz em si a Eternidade". O cameleiro quis saber quais as circunst×ncias em que Deus permitia ver o futuro: ­ Quando Ele mesmo o mostra. E Deus mostra o futuro raramente, e por uma ßnica razÇo: Ê um futuro que foi escrito para ser mudado. Deus tinha mostrado um futuro ao rapaz, pensou o cameleiro. Porque queria que o rapaz fosse o Seu instrumento. ­ V falar com os chefes tribais ­ disse o cameleiro. ­ Conte dos guerreiros que se aproximam. ­ Eles vÇo rir de mim. ­ SÇo homens do deserto, e os homens do deserto estÇo acostumados com os sinais. ­ EntÇo j devem saber. ­ NÇo estÇo preocupados com isto. Acreditam que se tiverem que saber algo que Allah deseje lhe contar, alguma pessoa lhes dir isto. J aconteceu muitas vezes antes. Mas hoje, esta pessoa Ê vocË. O rapaz pensou em FÂtima. E resolveu ir ver os chefes tribais. ­ Trago sinais do deserto ­ disse ao guarda que ficava na porta da imensa tenda branca no centro do oÂsis. ­ Quero ver os chefes. O guarda nÇo disse nada. Entrou e demorou-se muito l dentro. Depois saiu com um Ârabe jovem, vestido de branco e ouro. O rapaz contou ao jovem o que havia visto. Ele pediu que esperasse um pouco e tornou a entrar. A noite caiu. Entraram e saÎram vÂrios Ârabes e mercadores. Aos poucos as fogueiras foram se apagando, e o oÂsis comeÚou a ficar tÇo silencioso como o deserto. SÕ a luz da grande tenda continuava acesa. Durante todo este tempo, o rapaz pensava em FÂtima, ainda sem entender a conversa daquela tarde. Finalmente, depois de muitas horas de espera, o guarda mandou que o rapaz entrasse. O que viu deixou-o extasiado. Nunca poderia imaginar que, no meio do deserto, existisse uma tenda como aquela. O chÇo estava coberto com os mais belos tapetes que j havia pisado, e do teto pendiam lustres de metal amarelo trabalhado, coberto de velas acessas. Os chefes tribais estavam sentados no fundo da tenda, em semicÎrculo, descansando seus braÚos e pernas em almofadas de seda com ricos bordados. Criados entravam e saÎam com bandejas de prata cheias de especiarias e chÂ. Alguns se encarregavam de manter acesas as brasas dos narguilÊs. Um suave perfume de fumo enchia o ambiente. Haviam oito chefes, mas o rapaz logo percebeu quem era o mais importante: um Ârabe vestido de branco e ouro, sentado no centro do semicÎrculo. Ao seu lado estava o jovem Ârabe com quem tinha conversado antes. ­ Quem Ê o estrangeiro que fala de sinais? ­ perguntou um dos chefes, olhando para ele. ­ Eu sou ­ respondeu. E contou o que havia visto. ­ E por que o deserto ia contar isto a um estranho, quando sabe que estamos h vÂrias geraÚÈes aqui? ­ disse outro chefe tribal. ­ Porque meus olhos ainda nÇo se acostumaram com o deserto ­ respondeu o rapaz. ­ E eu posso ver coisas que os olhos habituados demais nÇo conseguem mais ver. "ê porque eu sei da Alma do Mundo", pensou consigo mesmo. Mas nÇo falou nada, porque os Ârabes nÇo acreditam nestas coisas. ­ O OÂsis Ê um terreno neutro. NinguÊm ataca um OÂsis ­ disse um terceiro chefe. ­ Eu conto apenas o que vi. Se nÇo quiserem acreditar, nÇo faÚam nada. Um completo silËncio abateu-se sobre a tenda, seguido de uma exaltada conversa entre os chefes tribais. Falavam num dialeto Ârabe que o rapaz nÇo entendia, mas quando ele fez menÚÇo de ir embora, um guarda disse para ficar. O rapaz comeÚou a sentir medo; os sinais diziam que havia alguma coisa errada. Lamentou haver conversado com o cameleiro a respeito. De repente, o velho que estava no centro deu um sorriso quase imperceptÎvel, e o rapaz tranqØilizou-se. O velho nÇo havia participado da discussÇo, e nÇo dissera uma palavra atÊ aquele momento. Mas o rapaz j estava acostumado com a Linguagem do Mundo, e pode sentir uma vibraÚÇo de Paz cruzando a tenda de ponta a ponta. Sua intuiÚÇo dizia que havia agido corretamente em vir. A discussÇo acabou. Ficaram em silËncio por algum tempo, ouvindo o velho. Depois, ele se virou para o rapaz: desta vez seu rosto estava frio e distante. ­ H dois mil anos, numa terra distante, jogaram num poÚo e venderam como escravo um homem que acreditava em sonhos ­ disse o velho. ­ Nossos mercadores o compraram e o trouxeram para o Egito. E todos nÕs sabemos que, quem acredita em sonhos, tambÊm sabe interpretÂ-los. "Embora nem sempre consiga realizÂ-los", pensou o rapaz, lembrando-se da velha cigana. ­ Por causa dos sonhos do faraÕ com vacas magras e gordas, este homem livrou o Egito da fome. Seu nome era JosÊ. Era tambÊm um estrangeiro numa terra estrangeira, como vocË, e devia ter mais ou menos a sua idade. O silËncio continuou. Os olhos do velho se mantinham frios. ­ Sempre seguimos a TradiÚÇo. A TradiÚÇo salvou o Egito da fome naquela Êpoca, e o fez o mais rico entre os povos. A TradiÚÇo ensina como os homens devem atravessar o deserto e casar suas filhas. A TradiÚÇo diz que um OÂsis Ê um terreno neutro, porque ambos os lados tem OÂsis, e sÇo vulnerÂveis. NinguÊm disse qualquer palavra enquanto o velho falava. ­ Mas a TradiÚÇo diz tambÊm para acreditarmos nas mensagens do deserto. Tudo que sabemos foi o deserto que nos ensinou. O velho fez um sinal e todos os Ârabes se levantaram. A reuniÇo estava para terminar. Os narguilÊs foram apagados, e os guardas se colocaram em posiÚÇo de sentido. O rapaz preparou-se para sair, mas o velho falou ainda mais uma vez: ­ AmanhÇ nÕs vamos romper um acordo que diz que ninguÊm no oÂsis pode portar armas. Durante o dia inteiro aguardaremos os inimigos. Quando o sol descer no horizonte, os homens me devolverÇo as armas. Para cada dez inimigos mortos, vocË receber uma moeda de ouro. "Entretanto, as armas nÇo podem sair do seu lugar sem experimentarem a batalha. SÇo caprichosas como o deserto, e se as acostumamos com isto, da prÕxima vez podem ter preguiÚa de disparar. Se nenhuma delas tiver sido utilizada amanhÇ, pelo menos uma ser usada em vocË." O oÂsis estava iluminado apenas pela lua cheia quando o rapaz saiu. Eram vinte minutos de caminhada atÊ sua tenda, e ele comeÚou a andar. Estava assustado com tudo que havia acontecido. Tinha mergulhado na Alma do Mundo, e o preÚo por acreditar naquilo era a sua vida. Uma aposta alta. Mas tinha apostado alto desde o dia em que havia vendido suas ovelhas para seguir sua Lenda Pessoal. E como dizia o cameleiro, morrer amanhÇ era tÇo bom como morrer em qualquer outro dia. Todo dia era feito para ser vivido ou para abandonar o mundo. Tudo dependia apenas de uma palavra: "Maktub". Caminhou em silËncio. NÇo estava arrependido. Se morresse amanhÇ, seria porque Deus nÇo estava com vontade de mudar o futuro. Mas teria morrido depois de haver cruzado o estreito, trabalhado em uma loja de cristais, conhecido o silËncio do deserto e os olhos de FÂtima. Tinha vivido intensamente cada um dos seus dias, desde que havia saÎdo de casa, h tanto tempo atrÂs. Se morresse amanhÇ, seus olhos teriam visto muito mais coisas do que os olhos dos outros pastores, e o rapaz tinha orgulho disto. De repente ouviu um estrondo, e foi jogado subitamente por terra, com o impacto de um vento que nÇo conhecia. O lugar encheu-se de poeira, que quase cobriu a lua. Na sua frente, um enorme cavalo branco empinou soltando um relincho aterrador. O rapaz mal podia ver o que se passava, mas quando a poeira assentou um pouco, sentiu um pavor que jamais havia sentido antes. Em cima do cavalo estava um cavaleiro todo vestido de negro, com um falcÇo em seu ombro esquerdo. Usava um turbante e um lenÚo que lhe cobria todo o rosto, deixando apenas os olhos de fora. Parecia o mensageiro do deserto, mas sua presenÚa era mais forte do que todas as pessoas que havia conhecido na vida. O estranho cavaleiro puxou a enorme espada curva que trazia presa Á sela. O aÚo brilhou com a luz da lua. ­ Quem ousou ler o vÆo dos gaviÈes? ­ perguntou com uma voz tÇo forte que pareceu ecoar entre as cinqØenta mil tamareiras do Al-fayoum. ­ Eu ousei ­ disse o rapaz. Lembrou-se imediatamente da imagem de Santiago Matamouros do seu cavalo branco com os infiÊis sob as patas. Era exatamente assim. SÕ que agora a situaÚÇo estava invertida. ­ Eu ousei ­ repetiu o rapaz, e abaixou a cabeÚa para receber o golpe da espada. ­ Muitas vidas serÇo salvas, porque vocËs nÇo contavam com a Alma do Mundo. A espada, porÊm, nÇo desceu rÂpido. A mÇo do estranho foi abaixando lentamente, atÊ que a ponta da l×mina tocou na testa do rapaz. Era tÇo afiada que saiu uma gota de sangue. O cavaleiro estava completamente imÕvel. O rapaz tambÊm. NÇo pensou um minuto sequer em fugir. Dentro do seu coraÚÇo, uma estranha alegria tomou conta dele: ia morrer por sua Lenda Pessoal. E por FÂtima. Os sinais eram verdadeiros, enfim. Ali estava o Inimigo, e por causa disto ele nÇo precisava se preocupar com a morte, porque havia uma Alma do Mundo. Daqui a pouco ele estaria fazendo parte dela. E amanhÇ o Inimigo faria parte dela tambÊm. O estranho, porÊm, apenas mantinha a espada em sua testa. ­ Por que vocË leu o vÆo dos pÂssaros? ­ Li apenas o que os pÂssaros queriam contar. Eles querem salvar o oÂsis, e vocËs morrerÇo. O oÂsis tem mais homens que vocËs. A espada continuava em sua testa. ­ Quem Ê vocË para mudar o destino de Allah? ­ Allah fez os exÊrcitos, e fez tambÊm os pÂssaros. Allah me mostrou a linguagem dos pÂssaros. Tudo foi escrito pela mesma MÇo, ­ disse o rapaz, lembrando as palavras do cameleiro. O estranho finalmente retirou a espada da testa. O rapaz sentiu um certo alÎvio. Mas nÇo podia fugir. ­ Cuidado com as adivinhaÚÈes ­ disse o estranho. ­ Quando as coisas estÇo escritas, nÇo h como evitÂ-las. ­ Apenas vi um exÊrcito ­ disse o rapaz. ­ NÇo vi o resultado de uma batalha. O cavaleiro parecia contente com a resposta. Mas mantinha a espada na sua mÇo. ­ O que faz um estrangeiro numa terra estrangeira? ­ Busco minha Lenda Pessoal. Algo que vocË nÇo entender nunca. O cavaleiro colocou a espada na bainha, e o falcÇo no seu ombro deu um grito estranho. O rapaz comeÚou a relaxar. ­ Precisava testar sua coragem ­ disse o estranho. ­ A coragem Ê o dom mais importante para quem busca a Linguagem do Mundo. O rapaz ficou surpreso. Aquele homem estava falando em coisas que pouca gente conhecia. ­ ê preciso nÇo relaxar nunca, mesmo tendo chegado tÇo longe ­ continuou ele. ­ ê preciso amar o deserto, mas jamais confiar inteiramente nele. Porque o deserto Ê uma prova para todos os homens: testa cada passo, e mata quem se distrai. Suas palavras lembravam as palavras do velho rei. ­ Se os guerreiros chegarem, e sua cabeÚa ainda estiver sobre o pescoÚo depois que o sol morrer, me procure ­ disse o estranho. A mesma mÇo que havia segurado a espada, empunhou um chicote. O cavalo empinou de novo, levantando uma nuvem de poeira. ­ Onde vocË mora? ­ gritou o rapaz, enquanto o cavaleiro se afastava. A mÇo com chicote apontou em direÚÇo ao sul. O rapaz tinha encontrado o Alquimista. Na manhÇ seguinte haviam dois mil homens armados entre as tamareiras de Al-Fayoum. Antes que o sol chegasse ao topo do cÊu, quinhentos guerreiros apareceram no horizonte. Os cavaleiros entraram no oÂsis pela parte norte; parecia uma expediÚÇo de paz, mas haviam armas escondidas sobre os mantos brancos. Quando chegaram perto da grande tenda que ficava no centro de Al-Fayoum, puxaram as cimitarras e as espingardas. E atacaram uma tenda vazia. Os homens do oÂsis cercaram os cavaleiros do deserto. Em meia hora haviam quatrocentos e noventa e nove corpos espalhados pelo chÇo. As crianÚas estavam no outro extremo do bosque de tamareiras, e nÇo viram nada. As mulheres rezavam por seus maridos nas tendas, e tambÊm nÇo viram nada. NÇo fosse pelos corpos espalhados, o oÂsis parecia viver um dia normal. Apenas um guerreiro foi poupado, o comandante do batalhÇo. De tarde ele foi conduzido diante dos chefes tribais, que lhe perguntaram porque havia rompido a TradiÚÇo. O comandante disse que seus homens estavam com fome e sede, exaustos por tantos dias de batalha, e haviam decidido tomar um oÂsis para poder recomeÚar a luta. O chefe tribal disse que sentia pelos guerreiros, mas a TradiÚÇo jamais pode ser rompida. A ßnica coisa que muda no deserto sÇo as dunas, quando sopra o vento. Depois condenou o comandante a uma morte sem honra. Ao invÊs do aÚo ou da bala de fuzil, ele foi enforcado numa tamareira tambÊm morta. Seu corpo balanÚou com o vento do deserto. O chefe tribal chamou o estrangeiro e lhe deu cinqØenta moedas de ouro. Depois tornou a recordar a histÕria de JosÊ no Egito, e pediu para que fosse o Conselheiro do OÂsis. Quando o sol se pÆs por completo, e as primeiras estrelas comeÚaram a aparecer (nÇo brilhavam muito, porque a lua cheia continuava), o rapaz andou em direÚÇo ao sul. Havia apenas uma tenda, e alguns Ârabes que passavam diziam que o lugar era cheio de djins. Mas o rapaz sentou-se e esperou durante muito tempo. O Alquimista apareceu quando a lua j estava alto no cÊu. Trazia dois gaviÈes mortos no ombro. ­ Aqui estou ­ disse o rapaz. ­ NÇo devia estar ­ respondeu o Alquimista. ­ Ou sua Lenda Pessoal era chegar atÊ aqui? ­ Existe uma guerra entre os clÇs. NÇo Ê possÎvel cruzar o deserto. O Alquimista desceu do seu cavalo, e fez um sinal para que o rapaz entrasse com ele na tenda. Era uma tenda igual a todas as outras que havia conhecido no oÂsis ­ exceto a grande tenda central, que tinha o luxo dos contos de fada. ­ Ele procurou os aparelhos e fornos de alquimia, mas nÇo encontrou nada. Havia apenas uns poucos livros empilhados, um fogÇo para cozinhar, e os tapetes cheios de desenhos misteriosos. ­ Sente-se, que vou preparar um ch ­ disse o Alquimista. E comeremos juntos estes gaviÈes. O rapaz suspeitou que eram os mesmos pÂssaros que havia visto no dia anterior, mas nÇo disse nada. O Alquimista acendeu o fogo, e em pouco tempo um delicioso cheiro de carne enchia a tenda. Era melhor que o perfume dos narguilÊs. ­ Por que quis me ver? ­ disse o rapaz. ­ Por causa dos sinais ­ respondeu o Alquimista ­ O vento me contou que vocË viria. E que ia precisar de ajuda. ­ NÇo sou eu. ê o outro estrangeiro, o InglËs. Ele Ê que o estava buscando. ­ Ele tem que encontrar outras coisas antes de me encontrar. Mas est no caminho certo. Passou a olhar o deserto. ­ E eu? ­ Quando se quer uma coisa, todo o Universo conspira para que a pessoa consiga realizar seu sonho ­ disse o Alquimista, repetindo as palavras do velho rei. O rapaz entendeu. Outro homem estava no seu caminho, para conduzi-lo atÊ sua Lenda Pessoal. ­ EntÇo vocË vai me ensinar? ­ NÇo. VocË j sabe de tudo que precisa. Vou apenas lhe fazer seguir em direÚÇo ao seu tesouro. ­ Existe uma guerra entre os clÇs. ­ repetiu o rapaz. ­ Eu conheÚo o deserto. ­ J encontrei meu tesouro. Tenho um camelo, o dinheiro das lojas de cristais, e cinqØenta moedas de ouro. Posso ser um homem rico na minha terra. ­ Mas nada disto est perto das Pir×mides ­ disse o Alquimista. ­ Tenho FÂtima. ê um tesouro maior que todo este que consegui juntar. ­ TambÊm ela nÇo est perto das Pir×mides. Comeram os gaviÈes em silËncio. O Alquimista abriu uma garrafa e derramou um lÎquido vermelho no copo do rapaz. Era vinho, um dos melhores vinhos que havia tomado em sua vida. Mas o vinho era proibido pela lei. ­ O mal nÇo Ê o que entra na boca do homem ­ disse o Alquimista. ­ O mal Ê o que sai dela. O rapaz comeÚou a sentir-se alegre com o vinho. Mas o Alquimista lhe inspirava medo. Sentaram-se do lado de fora da tenda, olhando o brilho da lua, que ofuscava as estrelas. ­ Beba e se distraia um pouco ­ disse o Alquimista, notando que o rapaz comeÚava a ficar cada vez mais alegre. ­ Repouse como um guerreiro sempre repousa antes do combate. Mas nÇo esqueÚa que o seu coraÚÇo est onde est o seu tesouro. E que seu tesouro precisa ser encontrado, para que tudo isto que vocË descobriu no caminho possa fazer sentido. "AmanhÇ venda seu camelo e compre um cavalo. Os camelos sÇo traiÚoeiros: andam milhares de passos, e nÇo dÇo qualquer sinal de cansaÚo. De repente, porÊm, ajoelham e morrem. Os cavalos vÇo se cansando aos poucos. E vocË poder saber sempre o quanto pode pedir deles, ou a Êpoca em que vÇo morrer". Na noite seguinte o rapaz apareceu com um cavalo na tenda do Alquimista. Esperou um pouco e ele apareceu, montado em seu animal, e com o falcÇo no ombro esquerdo. ­ Mostre-me a vida no deserto ­ disse o Alquimista. ­ SÕ quem acha vida, pode encontrar tesouros. ComeÚaram a caminhar pelas areias, com a lua ainda brilhando sobre os dois. "NÇo sei se vou conseguir encontrar vida no deserto", pensou o rapaz. "NÇo conheÚo ainda o deserto". Quis virar-se e dizer isto ao Alquimista, mas tinha medo dele. Chegaram ao lugar de pedras, onde o rapaz havia visto os gaviÈes no cÊu; entretanto, tudo era silËncio e vento. ­ NÇo consigo encontrar vida no deserto ­ disse o rapaz. Sei que ela existe, mas nÇo consigo encontrÂ-la. ­ A vida atrai a vida ­ respondeu o Alquimista. E o rapaz entendeu. Na mesma hora soltou as rÊdeas de seu cavalo e ele saiu livremente pelas pedras e areia. O Alquimista seguia em silËncio, e o cavalo do rapaz andou por quase meia-hora. J nÇo podiam mais ver as tamareiras do oÂsis, apenas a lua gigantesca no cÊu, e as rochas brilhando com a cor prata. De repente, num lugar onde jamais havia estado antes, o rapaz notou que seu cavalo parava. ­ Aqui existe vida ­ respondeu o rapaz ao Alquimista. ­ NÇo conheÚo a linguagem do deserto, mas meu cavalo conhece a linguagem da vida. Desmontaram. O Alquimista nÇo disse nada. ComeÚou a olhar as pedras, caminhando devagar. De repente, ele parou, e abaixou-se com todo cuidado. Havia um buraco no chÇo, entre as pedras; o Alquimista enfiou a mÇo dentro do buraco, e depois enfiou o braÚo atÊ o ombro. Alguma coisa se mexeu l dentro, e os olhos do Alquimista ­ ele sÕ podia ver os olhos ­ se encolherem de esforÚo e tensÇo. O braÚo parecia lutar com o que estava dentro do buraco. Mas num salto que assustou o rapaz, o Alquimista retirou o braÚo e ficou imediatamente de pÊ. Sua mÇo trazia unia serpente agarrada pelo rabo. O rapaz tambÊm deu um salto, sÕ que para trÂs. A cobra debatia-se sem cessar, emitindo ruÎdos e silvos que feriam o silËncio do deserto. Era uma naja, cujo veneno podia matar um homem em poucos minutos. "Cuidado com o veneno", chegou a pensar o rapaz. Mas o Alquimista havia colocado a mÇo no buraco, e j devia ter sido mordido. Seu rosto, porÊm, estava tranqØilo. "O Alquimista tem duzentos anos", havia falado o InglËs. J devia saber como lidar com cobras no deserto. O rapaz viu quando seu companheiro foi atÊ o cavalo e puxou a longa espada em forma de meia-lua. Com ela, traÚou um cÎrculo no chÇo e colocou a cobra no meio. O animal aquietou-se imediatamente ­ Pode ficar tranqØilo ­ disse o Alquimista. ­ Ela nÇo vai sair dali. E vocË descobriu a vida no deserto, o sinal que eu estava precisando. ­ Por que isto era tÇo importante? ­ Porque as Pir×mides estÇo cercadas de deserto. O rapaz nÇo queria ouvir falar nas Pir×mides. Seu coraÚÇo estava pesado e triste, desde a noite anterior. Porque seguir em busca do seu tesouro, significava ter que abandonar FÂtima. ­ Vou guiÂ-lo pelo deserto ­ falou o Alquimista. ­ Quero ficar no oÂsis ­ respondeu o rapaz. ­ J encontrei FÂtima. E ela, para mim, vale mais que o tesouro. ­ FÂtima Ê uma mulher do deserto ­ disse o Alquimista. ­ Sabe que os homens devem partir, para poderem voltar. Ela j encontrou seu tesouro: vocË. Agora espera que vocË encontre o que busca. ­ E se eu resolver ficar? ­ Ser o Conselheiro do OÂsis. Tem ouro suficiente para comprar muitas ovelhas e muitos camelos. Vai casar-se com FÂtima e viverÇo felizes o primeiro ano. Aprender a amar o deserto e vai conhecer cada uma das cinqØenta mil tamareiras. Perceber como elas crescem, mostrando um mundo que muda sempre. E ir cada vez entender mais os sinais, porque o deserto Ê um mestre melhor que todos os mestres. "No segundo ano vocË se lembrar que existe um tesouro. Os sinais comeÚarÇo a falar insistentemente sobre isto, e vocË tentar ignorÂ-los. Usar seu conhecimento apenas para o bem-estar do oÂsis e dos seus habitantes. Os chefes tribais lhe agradecerÇo por isto. Os seus camelos lhe trarÇo riqueza e poder. "No terceiro ano os sinais continuarÇo a falar sobre seu tesouro e sua Lenda Pessoal. VocË vai ficar noites e noites andando pelo oÂsis, e FÂtima ser uma mulher triste, porque fez com que seu caminho fosse interrompido. Mas vocË lhe dar amor, e ser correspondido. VocË vai se lembrar que ela jamais pediu que ficasse, porque uma mulher do deserto sabe esperar seu homem. Por isso nÇo vai culpÂ-la. Mas vai andar muitas noites pelas areias do deserto, e por entre as tamareiras, pensando que talvez pudesse ter ido adiante, ter confiado mais no seu amor por FÂtima. Porque o que o manteve no oÂsis foi seu prÕprio medo de nÇo voltar nunca. E a esta altura, os sinais lhe indicarÇo que seu tesouro est enterrado para sempre. No quarto ano, os sinais o abandonarÇo, porque vocË nÇo quis ouvi-los. Os Chefes Tribais irÇo entender isto, e vocË ser destituÎdo do Conselho. A esta altura ser um rico comerciante, com muitos camelos e muitas mercadorias. Mas passar o resto dos seus dias vagando entre as tamareiras e o deserto, sabendo que nÇo cumpriu sua Lenda Pessoal, e que agora Ê tarde demais para isto. "Sem jamais compreender que o Amor nunca impede um homem de seguir sua Lenda Pessoal. Quando isto acontece, Ê porque nÇo era o verdadeiro Amor, aquele que fala a Linguagem do Mundo". O Alquimista desfez o cÎrculo no chÇo, e a cobra correu e desapareceu entre as pedras. O rapaz lembrava o mercador de cristais que sempre quis ir Á Meca, e o InglËs que buscava um Alquimista. O rapaz lembrava de uma mulher que confiou no deserto, e o deserto um dia lhe trouxe a pessoa que desejava amar. Montaram em seus cavalos, e desta vez foi o rapaz que seguiu o Alquimista. O vento trazia os ruÎdos do oÂsis, e ele tentava identificar a voz de FÂtima. Naquele dia nÇo tinha ido ao poÚo por causa da batalha. Mas esta noite, enquanto olhavam uma cobra dentro de um cÎrculo, o estranho cavaleiro com seu falcÇo no ombro havia falado de amor e de tesouros, das mulheres do deserto e da sua Lenda Pessoal. ­ Vou com vocË ­ disse o rapaz. E imediatamente sentiu paz no seu coraÚÇo. ­ Partimos amanhÇ antes que o sol nasÚa ­ foi a ßnica resposta do Alquimista. O rapaz passou a noite inteira em claro. Duas horas antes do amanhecer, acordou um dos rapazes que dormia na sua tenda, e pediu para lhe mostrar onde morava FÂtima. SaÎram juntos, e foram atÊ lÂ. Em troca, o rapaz lhe deu dinheiro para comprar uma ovelha. Depois pediu que descobrisse onde FÂtima dormia, e que lhe acordasse e dissesse que o rapaz a estava esperando. O jovem Ârabe fez isto, e em troca ganhou dinheiro para comprar outra ovelha. ­ Agora deixe-nos a sÕs ­ disse o rapaz ao jovem Ârabe, que voltou Á sua tenda para dormir, orgulhoso de haver ajudado o Conselheiro do OÂsis; e contente por ter dinheiro para comprar ovelhas. FÂtima apareceu na porta da tenda. Os dois saÎram para andar entre as tamareiras. O rapaz sabia que era contra a TradiÚÇo, mas isto nÇo tinha nenhuma import×ncia agora. ­ Vou partir ­ disse. E quero que saiba que vou voltar. Eu te amo porque... ­ NÇo diga nada ­ interrompeu FÂtima. ­ Ama-se porque se ama. NÇo h qualquer razÇo para amar. Mas o rapaz continuou: ­ Eu te amo porque tive um sonho, encontrei um rei, vendi cristais, cruzei o deserto, os clÇs declararam guerra, e estive num poÚo para saber onde morava um Alquimista. Eu te amo porque todo o Universo conspirou para que eu chegasse atÊ vocË. ­ Os dois se abraÚaram. Era a primeira vez que um corpo tocava no outro. ­ Voltarei ­ repetiu o rapaz. ­ Antes eu olhava o deserto com desejo ­ disse FÂtima. Agora ser com esperanÚa. Meu pai um dia partiu, mas voltou para minha mÇe, e continua voltando sempre. E nÇo disseram mais nada. Andaram um pouco entre as tamareiras, e o rapaz a deixou na porta da tenda. ­ Voltarei como seu pai voltou para a sua mÇe ­ disse. Reparou que os olhos de FÂtima estavam cheios d'Âgua. ­ VocË chora? ­ Sou uma mulher do deserto ­ disse ela, escondendo o rosto. ­ Mas acima de tudo, sou uma mulher. FÂtima entrou na tenda. Daqui a pouco o sol ia aparecer. Quando o dia chegasse, ela ia sair e fazer aquilo que havia feito durante tantos anos; mas tudo havia mudado. O rapaz j nÇo estava mais no oÂsis, e o oÂsis nÇo teria mais o significado que tinha atÊ pouco tempo antes. NÇo seria mais o lugar com cinqØenta mil tamareiras e trezentos poÚos, onde os peregrinos chegavam contentes depois de uma longa viagem. O oÂsis, daquele dia em diante, seria um lugar vazio para ela. A partir daquele dia, o deserto ia ser mais importante. Iria olhar para ele sempre, tentando saber qual estrela o rapaz estava seguindo em busca do tesouro. Haveria de mandar seus beijos pelo vento, na esperanÚa de que ele tocasse o rosto do rapaz, e lhe contasse que estava viva, esperando por ele, como uma mulher espera um homem de coragem, que segue em busca de sonhos e tesouros. A partir daquele dia, o deserto ia ser apenas uma coisa: a esperanÚa de sua volta. ­ NÇo pense no que ficou para trÂs ­ disse o Alquimista, quando comeÚaram a cavalgar pelas areias do deserto. ­ Tudo est gravado na Alma do Mundo, e ali permanecer para sempre. ­ Os homens sonham mais com a volta do que com a partida ­ disse o rapaz, que j estava se acostumando de novo com o silËncio do deserto. ­ Se o que vocË encontrou Ê feito de matÊria pura, jamais apodrecerÂ. E vocË poder voltar um dia. Se foi apenas um momento de luz, como a explosÇo de uma estrela, entÇo nÇo vai encontrar nada quando voltar. Mas ter visto uma explosÇo de luz. E sÕ isto j valeu a pena. O homem falava em linguagem de alquimia. Mas o rapaz sabia que ele estava se referindo Á FÂtima. Era difÎcil nÇo pensar no que havia ficado para trÂs. O deserto, com sua paisagem quase sempre igual, costumava encher-se de sonhos. O rapaz ainda via as tamareiras, os poÚos, e o rosto da mulher amada. Via o InglËs com seu laboratÕrio, e o cameleiro que era um mestre e nÇo sabia. "Talvez o Alquimista jamais tenha amado", pensou o rapaz. O Alquimista cavalgava na sua frente, com o falcÇo nos ombros. O falcÇo conhecia bem a linguagem do deserto, e quando paravam, ele saÎa do ombro do Alquimista e voava em busca de alimento. No primeiro dia trouxe uma lebre. No segundo dia trouxe dois pÂssaros. De noite, estendiam seus cobertores e nÇo acendiam fogueiras. As noites do deserto eram frias, e foram ficando escuras Á medida que a lua comeÚou a diminuir no cÊu. Durante uma semana andaram em silËncio, conversando apenas sobre as precauÚÈes necessÂrias para evitar os combates entre os clÇs. A guerra continuava, e o vento Ás vezes trazia o cheiro adocicado de sangue. Alguma batalha havia sido travada por perto, e o vento recordava ao rapaz que havia a Linguagem dos Sinais, sempre pronta para mostrar o que seus olhos nÇo conseguiam ver. Quando completaram sete dias de viagem, o Alquimista resolveu acampar mais cedo do que de costume. O falcÇo saiu em busca de caÚa, e ele tirou o cantil de Âgua e ofereceu ao rapaz. ­ VocË agora est quase no final da viagem ­ disse o Alquimista. ­ Meus parabÊns por haver seguido sua Lenda Pessoal. ­ E vocË est me guiando em silËncio ­ disse o rapaz. ­ Pensei que ia me ensinar aquilo que sabe. Faz algum tempo que estive no deserto com um homem que tinha livros de Alquimia. Mas nÇo consegui aprender nada. ­ SÕ existe uma maneira de aprender ­ respondeu o Alquimista ­ ê atravÊs da aÚÇo. Tudo que vocË precisava saber, a viagem lhe ensinou. Falta apenas uma coisa. O rapaz quis saber o que era, mas o Alquimista manteve os olhos fixos no horizonte, esperando pela volta do falcÇo. ­ Por que o chamam de Alquimista? ­ Porque sou. ­ E o que havia de errado com os outros alquimistas, que buscaram ouro e nÇo conseguiram? ­ Buscavam apenas ouro ­ respondeu seu companheiro. ­ Buscavam o tesouro de sua Lenda Pessoal, sem desejarem viver a prÕpria Lenda. ­ O que me falta saber? ­ insistiu o rapaz. Mas o Alquimista continuou olhando o horizonte. Depois de algum tempo o falcÇo retornou com a comida. Cavaram um buraco e acenderam a fogueira dentro dele, para que ninguÊm pudesse ver a luz das chamas. ­ Sou um Alquimista porque sou um Alquimista ­ disse ele, enquanto preparavam a comida. ­ Aprendi a ciËncia de meus avÕs, que aprenderam de seus avÕs, e assim atÊ a criaÚÇo do mundo. Naquela Êpoca, toda a ciËncia da Grande Obra podia ser escrita numa simples esmeralda. Mas os homens nÇo deram import×ncia Ás coisas simples, e comeÚaram a escrever tratados, interpretaÚÈes, e estudos filosÕficos. ComeÚaram tambÊm a dizer que sabiam melhor o caminho que os outros. "Mas a TÂboa da Esmeralda continua viva atÊ hoje". ­ O que estava escrito na TÂboa da Esmeralda? ­ quis saber o rapaz. O Alquimista comeÚou a desenhar na areia, e nÇo demorou mais do que cinco minutos. Enquanto ele desenhava, o rapaz lembrou-se do velho rei, e da praÚa onde haviam se encontrado um dia; parecia que tinham se passado muitos e muitos anos. ­ Isto estava escrito na TÂboa da Esmeralda ­ disse o Alquimista, quando acabou de escrever. O rapaz aproximou-se e leu as palavras na areia. ­ ê um cÕdigo ­ disse o rapaz, um pouco decepcionado com a TÂboa da Esmeralda. ­ Parece com os livros do InglËs. ­ NÇo ­ respondeu o Alquimista. ­ ê como o vÆo dos gaviÈes; nÇo deve ser compreendida simplesmente pela razÇo. A TÂboa da Esmeralda Ê uma passagem direta para a Alma do Mundo. "Os sÂbios entenderam que este mundo natural Ê apenas uma imagem e uma cÕpia do ParaÎso. A simples existËncia deste mundo Ê a garantia de que existe um mundo mais perfeito que ele. Deus o criou para que, atravÊs das coisas visÎveis, os homens pudessem compreender seus ensinamentos espirituais, e as maravilhas de sua sabedoria. Isto Ê que eu chamo de AÚÇo". ­ Devo entender a TÂboa da Esmeralda? ­ perguntou o rapaz. ­ "Talvez, se vocË estivesse num laboratÕrio de Alquimia, agora seria o momento certo para estudar a melhor maneira de entender a TÂboa da Esmeralda. Entretanto, vocË est no Deserto. EntÇo mergulhe no deserto. Ele serve para compreender o mundo tanto como qualquer outra coisa sobre a face da terra. VocË nem precisa de entender o deserto: basta contemplar um simples grÇo de areia, e ver nele todas as maravilhas da CriaÚÇo". ­ Como faÚo para mergulhar no deserto? ­ Escute seu coraÚÇo. Ele conhece todas as coisas, porque veio da Alma do Mundo, e um dia retornar para ela. Andaram em silËncio mais dois dias. O Alquimista estava muito mais cauteloso, porque se aproximavam da zona de combates mais violentos. E o rapaz procurava escutar seu coraÚÇo. Era um coraÚÇo difÎcil; antes estava acostumado a partir sempre, e agora queria chegar a todo custo. ás vezes, seu coraÚÇo ficava muitas horas contando histÕrias de saudades, outras vezes se emocionava com o nascer do sol no deserto, e fazia o rapaz chorar escondido. O coraÚÇo batia mais rÂpido quando falava para o rapaz sobre o tesouro e ficava mais vagaroso quando os olhos do rapaz se perdiam no horizonte sem fim do deserto. Mas nunca estava em silËncio, mesmo que o rapaz nÇo trocasse uma palavra com o Alquimista. ­ Por que temos que escutar o coraÚÇo? ­ perguntou o rapaz quando acamparam aquele dia. ­ Porque, onde ele estiver, Ê onde estar o seu tesouro. ­ Meu coraÚÇo Ê agitado ­ disse o rapaz. ­ Tem sonhos, se emociona, e est apaixonado por uma mulher do deserto. Ele me pede coisas e nÇo me deixa dormir muitas noites, quando penso nela. ­ ê bom. Seu coraÚÇo est vivo. Continue a ouvir o que ele tem para dizer. Nos trËs dias seguintes os dois passaram por alguns guerreiros, e viram outros guerreiros no horizonte. O coraÚÇo do rapaz comeÚou a falar sobre o medo. Contava para o rapaz histÕrias que tinha ouvido da Alma do Mundo, histÕrias de homens que foram em busca de seus tesouros e jamais o encontraram. ás vezes assustava o rapaz com o pensamento de que poderia nÇo conseguir o tesouro, ou poderia morrer no deserto. Outras vezes dizia para o rapaz que j estava satisfeito, que j havia encontrado um amor e muitas moedas de ouro. ­ Meu coraÚÇo Ê traiÚoeiro ­ disse o rapaz ao Alquimista, quando eles pararam para descansar um pouco os cavalos. ­ NÇo quer que eu continue. ­ Isto Ê bom ­ respondeu o Alquimista. ­ Prova que seu coraÚÇo est vivo. ê natural ter medo de trocar por um sonho tudo aquilo que j se conseguiu. ­ EntÇo, para que devo escutar meu coraÚÇo? ­ Porque vocË nÇo vai conseguir jamais mantË-lo calado. E mesmo que finja nÇo escutar o que ele diz, ele estar dentro do seu peito, repetindo sempre o que pensa sobre a vida e o mundo. ­ Mesmo que ele seja traiÚoeiro? ­ A traiÚÇo Ê o golpe que vocË nÇo espera. Se vocË conhecer bem seu coraÚÇo, ele jamais conseguir isto. Porque vocË conhecer seus sonhos e seus desejos, e saber lidar com eles. "NinguÊm consegue fugir do seu coraÚÇo. Por isso Ê melhor escutar o que ele fala. Para que jamais venha um golpe que vocË nÇo espera". O rapaz continuou a escutar seu coraÚÇo, enquanto caminhavam pelo deserto. Passou a conhecer suas artimanhas e seus truques, e passou a aceitÂ-lo como era. EntÇo o rapaz deixou de ter medo, e deixou de ter vontade de voltar, porque certa tarde o seu coraÚÇo lhe disse que estava contente. "Mesmo que eu reclame um pouco", dizia seu coraÚÇo, "Ê porque sou um coraÚÇo de homem, e os coraÚÈes de homens sÇo assim. TËm medo de realizar seus maiores sonhos, porque acham que nÇo o merecem, ou nÇo vÇo consegui-los. NÕs, os coraÚÈes, morremos de medo sÕ de pensar em amores que partiram para sempre, em momentos que poderiam ter sido bons e que nÇo foram, em tesouros que poderiam ter sido descobertos e ficaram para sempre escondidos na areia. Porque quando isto acontece, terminamos sofrendo muito". ­ Meu coraÚÇo tem medo de sofrer ­ disse o rapaz para o Alquimista, uma noite em que olhavam o cÊu sem lua. ­ Diga para ele que o medo de sofrer Ê pior do que o prÕprio sofrimento. E que nenhum coraÚÇo jamais sofreu quando foi em busca de seus sonhos, porque cada momento de busca Ê um momento de encontro com Deus e com a Eternidade. "Cada momento de busca Ê um momento de encontro", disse o rapaz ao seu coraÚÇo. "Enquanto procurei meu tesouro, todos os dias foram dias luminosos, porque eu sabia que cada hora fazia parte do sonho de encontrar. Enquanto procurei este meu tesouro, descobri no caminho coisas que jamais teria sonhado encontrar, se nÇo tivesse tido a coragem de tentar coisas impossÎveis aos pastores". EntÇo seu coraÚÇo ficou quieto por uma tarde inteira. De noite, o rapaz dormiu tranqØilo, e quando acordou, o seu coraÚÇo comeÚou a lhe contar as coisas da Alma do Mundo. Disse que todo homem feliz era um homem que trazia Deus dentro de si. E que a felicidade poderia ser encontrada num simples grÇo de areia do deserto, como o Alquimista havia falado. Porque um grÇo de areia Ê um momento da CriaÚÇo, e o Universo demorou milhares de milhÈes de anos para criÂ-lo. "Cada homem na face da Terra tem um tesouro que est esperando por ele", disse seu coraÚÇo. NÕs, os coraÚÈes, costumamos falar pouco destes tesouros, porque os homens j nÇo querem mais encontrÂ-los. SÕ falamos dele para as crianÚas. Depois deixamos que a vida encaminhe cada um em direÚÇo ao seu destino. Mas, infelizmente, poucos seguem o caminho que lhes est traÚado, e que Ê o caminho da Lenda Pessoal, e da felicidade. Acham o mundo uma coisa ameaÚadora ­ e por causa disto o mundo se torna uma coisa ameaÚadora. "EntÇo nÕs, os coraÚÈes, vamos falando cada vez mais baixo, mas nÇo nos calamos nunca. E torcemos para que nossas palavras nÇo sejam ouvidas: nÇo queremos que os homens sofram porque nÇo seguiram seus coraÚÈes". ­ Por que os coraÚÈes nÇo contam aos homens que devem continuar seguindo seus sonhos? ­ perguntou o rapaz ao Alquimista. ­ Porque, neste caso, o coraÚÇo Ê o que sofre mais. E os coraÚÈes nÇo gostam de sofrer. O rapaz entendeu seu coraÚÇo a partir daquele dia. Pediu que nunca mais o deixasse. Pediu que, quando estivesse longe de seus sonhos, o coraÚÇo apertasse no peito e desse o sinal de alarme. O rapaz jurou que sempre que escutasse este sinal, tambÊm o seguiria. Naquela noite conversou tudo com o Alquimista. E o Alquimista entendeu que o coraÚÇo do rapaz havia voltado para a Alma do Mundo . ­ O que faÚo agora? ­ perguntou o rapaz. ­ Siga em direÚÇo Ás Pir×mides ­ disse o Alquimista. ­ E continue atento aos sinais. Seu coraÚÇo jÂ Ê capaz de lhe mostrar o tesouro. ­ Era isto que estava faltando saber? ­ NÇo. ­ respondeu o Alquimista. ­ O que est faltando saber Ê o seguinte: "Sempre antes de realizar um sonho, a Alma do Mundo resolve testar tudo aquilo que foi aprendido durante a caminhada. Ela faz isto nÇo porque seja mÂ, mas para que possamos, junto com o nosso sonho, conquistar tambÊm as liÚÈes que aprendemos seguindo em direÚÇo a ele. ê o momento em que a maior parte das pessoas desiste. ê o que chamamos, em linguagem do deserto, de `morrer de sede quando as tamareiras j apareceram no horizonte' ". "Uma busca comeÚa sempre com a Sorte de Principiante. E termina sempre com a Prova do Conquistador". O rapaz lembrou-se de um velho provÊrbio de sua terra. Dizia que a hora mais escura era a que vinha antes do sol nascer. No dia seguinte apareceu o primeiro sinal concreto de perigo. TrËs guerreiros se aproximaram e perguntaram o que os dois estavam fazendo por ali. ­ Vim caÚar com o meu falcÇo ­ respondeu o Alquimista. ­ Precisamos revistÂ-los para ver se nÇo levam armas ­ disse um dos guerreiros. O Alquimista desceu devagar de seu cavalo. O rapaz fez o mesmo. ­ Para quË tanto dinheiro? ­ perguntou o guerreiro, quando viu a bolsa do rapaz. ­ Para chegar ao Egito ­ disse ele. O guarda que estava revistando o Alquimista encontrou um pequeno frasco de cristal cheio de lÎquido, e um ovo de vidro amarelado, pouco maior que o ovo de uma galinha. ­ Que sÇo estas coisas? ­ perguntou o guarda. ­ ê a Pedra Filosofal e o Elixir da Longa Vida. ê a grande obra dos Alquimistas. Quem tomar este elixir jamais ficar doente, e uma lasca desta pedra transforma qualquer metal em ouro. Os guardas riram pra valer, e o Alquimista riu com eles. Tinham achado a resposta muito engraÚada, e os deixaram partir sem maiores contratempos, com todos os seus pertences. ­ VocË est louco? ­ perguntou o rapaz ao Alquimista, quando j haviam se distanciado bastante. ­ Para que vocË fez isto? ­ Para mostrar a vocË uma simples lei do mundo ­ respondeu o Alquimista. ­ Quando temos os grandes tesouros diante de nÕs, nunca percebemos. E sabe por quË? Porque os homens nÇo acreditam em tesouros. Continuaram andando pelo deserto. A cada dia que passava, o coraÚÇo do rapaz ia ficando mais silencioso. J nÇo queria saber das coisas passadas ou das coisas futuras; contentava-se em contemplar tambÊm o deserto, e beber junto com o rapaz da Alma do Mundo. Ele e seu coraÚÇo tornaram-se grandes amigos ­ um passou a ser incapaz de trair o outro. Quando o coraÚÇo falava, era para dar estÎmulo e forÚa ao rapaz, que Ás vezes achava terrivelmente maÚante os dias de silËncio. O coraÚÇo contou-lhe pela primeira vez suas grandes qualidades: sua coragem ao abandonar as ovelhas, ao viver sua Lenda Pessoal, e seu entusiasmo na loja de cristais. Contou-lhe tambÊm mais uma coisa, que o rapaz nunca havia notado: os perigos que passaram perto e que ele nunca tinha percebido. Seu coraÚÇo disse que certa vez havia escondido a pistola que ele havia roubado do pai, pois havia uma grande chance de que se ferisse com ela. E lembrou um dia que o rapaz havia passado mal em pleno campo, vomitado, e depois dormido por muito tempo: haviam dois assaltantes mais adiante, que estavam planejando roubar suas ovelhas, e assassinÂ-lo. Mas como o rapaz nÇo aparecia, resolveram ir embora, achando que ele tinha mudado de rota. ­ Os coraÚÈes sempre ajudam os homens? ­ perguntou o rapaz ao Alquimista. ­ SÕ os que vivem sua Lenda Pessoal. Mas ajudam muito as crianÚas, os bËbados, e os velhos. ­ Quer dizer entÇo que nÇo h perigo? ­ Quer dizer apenas que os coraÚÈes se esforÚam ao mÂximo ­ respondeu o Alquimista. Certa tarde passaram pelo acampamento de um dos clÇs. Haviam Ârabes em vistosas roupas brancas, com armas ensilhadas em todos os cantos. Os homens fumavam narguilÊ e conversavam sobre os combates. NinguÊm prestou maior atenÚÇo aos dois viajantes. ­ NÇo h qualquer perigo ­ disse o rapaz, quando j tinham se afastado um pouco do acampamento. O Alquimista ficou furioso. ­ Confie em seu coraÚÇo ­ disse, mas nÇo se esqueÚa de que vocË est no deserto. Quando os homens estÇo em guerra, a Alma do Mundo tambÊm sente os gritos de combate. NinguÊm deixa de sofrer as conseqØËncias de cada coisa que se passa debaixo do sol. "Tudo Ê uma coisa ßnica", pensou o rapaz. E como se o deserto quisesse mostrar que o velho Alquimista estava certo, dois cavaleiros surgiram por detrÂs dos viajantes. ­ NÇo podem seguir adiante ­ disse um deles. ­ VocËs estÇo nas areias onde os combates sÇo travados. ­ NÇo vou muito longe ­ respondeu o Alquimista, olhando fundo nos olhos dos guerreiros. Eles ficaram quietos por alguns minutos, e depois concordaram com a viagem dos dois. O rapaz assistiu aquilo tudo fascinado. ­ VocË dominou os guardas com o olhar ­ comentou ele. ­ Os olhos mostram a forÚa da alma ­ respondeu o Alquimista. Era verdade, pensou o rapaz. Havia percebido que, no meio da multidÇo de soldados no acampamento, um deles estava olhando fixo para os dois. E estava tÇo distante, que nÇo dava sequer para ver direito sua face. Mas o rapaz tinha certeza de que estava olhando para eles. Finalmente, quando comeÚaram a cruzar uma montanha que se estendia por todo o horizonte, o Alquimista disse que faltavam dois dias para chegarem atÊ Ás Pir×mides. ­ Se vamos nos separar logo ­ respondeu o rapaz ­ me ensine Alquimia. ­ VocË j sabe. ê penetrar na Alma do Mundo, e descobrir o tesouro que ela reservou para nÕs. ­ NÇo Ê isto que quero saber. Falo de transformar chumbo em ouro. O Alquimista respeitou o silËncio do deserto, e sÕ respondeu ao rapaz quando pararam para comer. ­ Tudo no Universo evolui ­ disse ele. ­ E para os sÂbios, o ouro Ê o metal mais evoluÎdo. NÇo pergunte porquË; nÇo sei. Sei apenas que a TradiÚÇo est sempre certa. "Os homens Ê que nÇo interpretaram bem as palavras dos sÂbios. E ao invÊs de sÎmbolo de evoluÚÇo, o ouro passou a ser o sinal das guerras. ­ As coisas falam muitas linguagens ­ disse o rapaz. ­ Vi quando o relincho de camelo era apenas um relincho, depois passou a ser sinal de perigo, e finalmente tornou- se de novo um relincho. Mas calou-se. O Alquimista devia saber tudo aquilo. ­ Conheci verdadeiros alquimistas ­ continuou. ­ Se trancavam no laboratÕrio e tentavam evoluir como o ouro; descobriam a Pedra Filosofal. Porque haviam entendido que quando uma coisa evolui, evolui tambÊm tudo que est a sua volta. "Outros conseguiram a pedra por acidente. J tinham o dom, suas almas estavam mais despertas que a das outras pessoas. Mas estes nÇo contam, porque sÇo raros. "Outros, enfim, buscavam apenas o ouro. Estes jamais descobriram o segredo. Esqueceram-se de que o chumbo, o cobre, o ferro, tambÊm tËm sua Lenda Pessoal para cumprir. Quem interfere na Lenda Pessoal dos outros, nunca descobrir a sua". As palavras do Alquimista soaram como uma maldiÚÇo. Ele abaixou-se e pegou uma concha no solo do deserto. ­ Isto um dia j foi um mar ­ disse. ­ J tinha reparado ­ respondeu o rapaz. O Alquimista pediu ao rapaz para colocar a concha no ouvido. Ele tinha feito isto muitas vezes quando era crianÚa, e escutou o barulho do mar. ­ O mar continua dentro desta concha, porque Ê sua Lenda Pessoal. E jamais a abandonarÂ, atÊ que o deserto se cubra novamente de Âgua. Depois montaram em seus cavalos, e seguiram em direÚÇo Ás Pir×mides do Egito. O sol tinha comeÚado a descer quando o coraÚÇo do rapaz deu sinal de perigo. Estavam no meio de gigantescas dunas, e o rapaz olhou o Alquimista, mas este parecia nÇo haver notado nada. Cinco minutos depois o rapaz percebeu dois cavaleiros a sua frente, as silhuetas cortadas contra o sol. Antes que pudesse falar com o Alquimista, os dois cavaleiros se transformaram em dez, depois em cem, atÊ que as gigantescas dunas ficaram cobertas deles. Eram guerreiros vestidos de azul, com uma tiara negra sobre o turbante. Os rostos estavam cobertos por outro vÊu azul, deixando apenas os olhos de fora. Mesmo distante, os olhos mostravam a forÚa de suas almas. E os olhos falavam em morte. Levaram os dois para um acampamento militar nas imediaÚÈes. Um soldado empurrou o rapaz e o Alquimista para dentro de uma tenda. Era uma tenda diferente das que havia conhecido no oÂsis; ali estava um comandante reunido com seu estado-maior. ­ SÇo os espiÈes ­ disse um dos homens. ­ Somos apenas viajantes ­ respondeu o Alquimista. ­ VocËs foram vistos no acampamento inimigo h trËs dias atrÂs. E conversaram com um dos guerreiros. ­ Sou um homem que caminha pelo deserto e conhece as estrelas ­ disse o Alquimista. NÇo tenho informaÚÈes de tropas, ou o movimento dos clÇs. Apenas guiava meu amigo atÊ aqui. ­ Quem Ê seu amigo? perguntou o comandante. ­ Um Alquimista ­ disse o Alquimista. ­ Conhece os poderes da natureza. E deseja mostrar ao comandante sua capacidade extraordinÂria. O rapaz ouvia em silËncio. E com medo. ­ O que faz um estrangeiro numa terra estrangeira? ­ disse outro homem. ­ Trouxe dinheiro para oferecer a seu clÇ ­ respondeu o Alquimista, antes que o rapaz dissesse qualquer palavra. E pegando a bolsa do rapaz, entregou as moedas de ouro ao general. O Ârabe aceitou em silËncio. Dava para comprar muitas armas. ­ O que Ê um Alquimista? ­ perguntou, finalmente. ­ Um homem que conhece a natureza e o mundo. Se ele quisesse, destruÎa este acampamento apenas com a forÚa do vento. Os homens riram. Estavam acostumados com a forÚa da guerra, e o vento nÇo detÊm um golpe mortal. Dentro do peito de cada um, porÊm, seus coraÚÈes apertaram. Eram homens do deserto e tinham medo dos feiticeiros. ­ Quero ver ­ disse o general. ­ Precisamos de trËs dias ­ respondeu o Alquimista. ­ E ele vai se transformar em vento, apenas para mostrar a forÚa de seu poder. Se nÇo conseguir, nÕs lhe oferecemos humildemente nossas vidas, pela honra de seu clÇ. ­ NÇo pode me oferecer o que jÂ Ê meu ­ disse, arrogante, o general. Mas concedeu os trËs dias aos viajantes. O rapaz estava paralisado de terror. Saiu da tenda porque o Alquimista lhe segurou os braÚos. ­ NÇo deixe que eles percebam seu medo ­ disse o Alquimista. ­ SÇo homens corajosos, e desprezam os covardes. O rapaz, porÊm, estava sem voz. SÕ conseguiu falar depois de algum tempo, enquanto caminhavam pelo meio do acampamento. NÇo havia necessidade de prisÇo: os Ârabes apenas tiraram seus cavalos. E mais uma vez o mundo mostrou suas muitas linguagens: o deserto, antes um terreno livre e sem fim, era agora uma muralha intransponÎvel. ­ VocË deu todo o meu tesouro! ­ disse o rapaz. ­ Tudo que eu ganhei em toda a minha vida! ­ E para que lhe adiantaria isto, se tivesse que morrer? ­ respondeu, o Alquimista. ­ Seu dinheiro o salvou por trËs dias. Poucas vezes o dinheiro serve para adiar a morte. Mas o rapaz estava apavorado demais para ouvir palavras sÂbias. NÇo sabia como transformar-se em vento. NÇo era um Alquimista. O Alquimista pediu ch a um guerreiro, e colocou um pouco nos pulsos do rapaz. Uma onda de tranqØilidade encheu seu corpo, enquanto o Alquimista dizia algumas palavras que ele nÇo conseguia compreender. ­ NÇo se entregue ao desespero ­ disse o Alquimista, com uma voz estranhamente doce. ­ Isto faz com que vocË nÇo consiga conversar com seu coraÚÇo. ­ Mas eu nÇo sei transformar-me em vento. ­ Quem vive sua Lenda Pessoal, sabe tudo que precisa saber. SÕ uma coisa torna um sonho impossÎvel: o medo de fracassar. ­ NÇo tenho medo de fracassar. Apenas nÇo sei transformar-me em vento. ­ Pois ter que aprender. Sua vida depende disto. ­ E se eu nÇo conseguir? ­ Vai morrer enquanto vivia sua Lenda Pessoal. ê muito melhor do que morrer como milhÈes de pessoas, que jamais souberam que a Lenda Pessoal existia. "Entretanto, nÇo se preocupe. Geralmente a morte faz com que as pessoas fiquem mais sensÎveis Á vida." O primeiro dia se passou. Houve uma grande batalha nas imediaÚÈes, e vÂrios feridos foram trazidos para o acampamento militar. "Nada muda com a morte", pensava o rapaz. Os guerreiros que morriam eram substituÎdos por outros, e a vida continuava. ­ Poderias ter morrido mais tarde, meu amigo ­ disse o guarda para o corpo de um companheiro seu. ­ Poderias ter morrido quando chegasse a paz. Mas irias terminar morrendo de qualquer jeito. No final do dia, o rapaz foi procurar o Alquimista. Estava levando o falcÇo para o deserto. ­ NÇo sei transformar-me em vento ­ repetiu o rapaz. ­ Lembre-se do que eu lhe disse: de que o mundo Ê apenas a parte visÎvel de Deus. De que a Alquimia Ê trazer para o plano material a perfeiÚÇo espiritual. ­ O que vocË faz? ­ Alimento meu falcÇo. ­ Se eu nÇo conseguir transformar-me em vento, nÕs vamos morrer ­ disse o rapaz. ­ Para que alimentar o falcÇo? ­ Quem vai morrer Ê vocË ­ disse o Alquimista. ­ Eu sei transformar-me em vento. No segundo dia o rapaz foi para o alto de uma rocha que ficava perto do acampamento. As sentinelas o deixaram passar; j ouviram falar do bruxo que se transformava em vento, e nÇo queriam chegar perto dele. AlÊm disso, o deserto era uma grande e intransponÎvel muralha. Ficou o resto da tarde do segundo dia olhando o deserto. Escutou seu coraÚÇo. E o deserto escutou seu medo. Ambos falavam a mesma lÎngua. No terceiro dia o general reuniu-se com os principais comandantes. ­ Vamos ver o garoto que se transforma em vento ­ disse o General ao Alquimista. ­ Vamos ver ­ respondeu o Alquimista. O rapaz os conduziu atÊ o lugar onde havia estado no dia anterior. EntÇo pediu que todos se sentassem. ­ Vai demorar um pouco ­ disse o rapaz. ­ NÇo temos pressa ­ respondeu o General. ­ Somos homens do deserto. O rapaz comeÚou a olhar o horizonte a sua frente. Haviam montanhas ao longe, haviam dunas, rochas e plantas rasteiras que insistiam em viver onde a sobrevivËncia era impossÎvel. Ali estava o deserto, que ele havia percorrido durante tantos meses, e que, mesmo assim, sÕ conhecia uma parte muito pequena. Nesta pequena parte ele havia encontrado ingleses, caravanas, guerras de clÇs, e um oÂsis com cinqØenta mil tamareiras e trezentos poÚos. ­ O que vocË quer aqui hoje? ­ perguntou o deserto. ­ J nÇo nos contemplamos o suficiente ontem? ­ Em algum ponto vocË guarda a pessoa que eu amo ­ disse o rapaz. ­ EntÇo, quando olho suas areias contemplo tambÊm a ela. Quero voltar a ela e preciso de sua ajuda para transformar-me em vento. ­ O que Ê o amor? ­ perguntou o deserto. ­ O amor Ê quando o falcÇo voa sobre suas areias. Porque para ele vocË Ê um campo verde, e ele nunca voltou sem caÚa. Ele conhece suas rochas, suas dunas, e suas montanhas, e vocË Ê generoso com ele. ­ O bico do falcÇo tira pedaÚos de mim ­ disse o deserto. ­ Durante anos eu cultivo sua caÚa, alimento com a pouca Âgua que tenho, mostro onde est a comida. E um dia, desce o falcÇo do cÊu, justamente quando eu ia sentir o carinho da caÚa sobre minhas areias. Ele carrega aquilo que eu criei. ­ Mas foi para isto que vocË criou a caÚa ­ respondeu o rapaz. ­ Para alimentar o falcÇo. E o falcÇo alimentar o homem. E o homem entÇo alimentar um dia tuas areias, de onde a caÚa tornar a surgir. Assim move-se o mundo. ­ ê isto o amor? ­ ê isto o amor. ê o que faz a caÚa transformar-se em falcÇo, o falcÇo em homem, e o homem de novo em deserto. ê isto que faz o chumbo transformar-se em ouro; e o ouro voltar a esconder-se sob a terra. ­ NÇo entendo suas palavras ­ disse o deserto. ­ EntÇo entenda que em algum lugar de suas areias, uma mulher me espera. E para isto, tenho que transformar-me em vento. O deserto ficou em silËncio por alguns instantes. ­ Eu lhe dou minhas areias para que o vento possa soprar. Mas sozinho, nÇo posso fazer nada. PeÚa ajuda ao vento. Uma pequena brisa comeÚou a soprar. Os comandantes olhavam o rapaz ao longe, falando uma linguagem que eles nÇo conheciam. O Alquimista sorria. O vento chegou perto do rapaz e tocou seu rosto. Havia escutado sua conversa com o deserto, porque os ventos sempre conhecem tudo. Percorriam o mundo sem um lugar onde nascer e sem um lugar onde morrer. ­ Me ajude ­ disse o rapaz ao vento. ­ Certo dia escutei em vocË a voz da minha amada. ­ Quem lhe ensinou a falar a linguagem do deserto e do vento? ­ Meu coraÚÇo ­ respondeu o rapaz. O vento tinha muitos nomes. Ali ele era chamado de siroco, porque os Ârabes acreditavam que ele vinha das terras cobertas de Âgua, onde habitavam homens negros. Na terra distante de onde vinha o rapaz, eles o chamavam de Levante, porque acreditavam que trazia as areias do deserto e os gritos de guerra dos mouros. Talvez num lugar mais distante dos campos de ovelhas, os homens pensassem que o vento nascia em Andaluzia. Mas o vento nÇo vinha de lugar nenhum, e nÇo ia para lugar nenhum, e por isso era mais forte que o deserto. Um dia eles poderiam plantar Ârvores no deserto, e atÊ mesmo criar ovelhas, mas jamais iriam conseguir dominar o vento. ­ VocË nÇo pode ser o vento ­ disse o vento. ­ Somos de naturezas diferentes. ­ NÇo Ê verdade ­ disse o rapaz. ­ Conheci os segredos da Alquimia, enquanto vagava o mundo com vocË. Tenho em mim os ventos, os desertos, os oceanos, as estrelas, e tudo que foi criado no Universo. Fomos feitos pela mesma MÇo, e temos a mesma Alma. Quero ser como vocË, penetrar em todos os cantos, atravessar os mares, tirar a areia que cobre meu tesouro, trazer para perto a voz de minha amada. ­ Ouvi sua conversa com o Alquimista outro dia ­ disse o vento. ­ Ele falou que cada coisa tem sua Lenda Pessoal. As pessoas nÇo podem se transformar em vento. ­ Me ensine a ser vento por alguns instantes, ­ disse o rapaz. ­ Para que possamos conversar sobre as possibilidades ilimitadas dos homens e dos ventos. O vento era curioso, e aquilo era uma coisa que ele nÇo conhecia. Gostaria de conversar sobre aquele assunto, mas nÇo sabia como transformar homens em vento. E olha que ele conhecia tanta coisa! ConstruÎa desertos, afundava navios, derrubava florestas inteiras, e passeava por cidades cheias de mßsica e de ruÎdos estranhos. Achava que era ilimitado, e no entanto ali estava um rapaz dizendo que ainda havia mais coisas que um vento podia fazer. ­ ê isto que chamam de Amor ­ disse o rapaz, ao ver que o vento estava quase cedendo ao seu pedido. ­ Quando se ama Ê que se consegue ser qualquer coisa da CriaÚÇo. Quando se ama nÇo temos necessidade nenhuma de entender o que acontece, porque tudo passa a acontecer dentro de nÕs, e os homens podem se transformar em vento. Desde que os ventos ajudem, Ê claro. O vento era muito orgulhoso, e ficou irritado com o que o rapaz dizia. ComeÚou a soprar com mais velocidade, levantando as areias do deserto. Mas finalmente teve que reconhecer que, mesmo havendo percorrido o mundo inteiro, nÇo sabia como transformar homens em ventos. E nÇo conhecia o Amor. ­ Enquanto passeava pelo mundo, notei que muitas pessoas falavam de amor olhando para o cÊu ­ disse o vento, furioso por ter que aceitar suas limitaÚÈes. ­ Talvez seja melhor perguntar ao cÊu. ­ EntÇo me ajude ­ disse o rapaz. ­ Encha este lugar de poeira, para que eu possa olhar o sol sem ficar cego. O vento entÇo soprou com muita forÚa, e o cÊu ficou cheio de areia, deixando apenas um disco dourado no lugar do sol. No acampamento estava ficando difÎcil de enxergar. Os homens do deserto j conheciam aquele vento. Chamava-se Simum, e era pior que uma tempestade no mar ­ porque eles nÇo conheciam o mar. Os cavalos relinchavam, e as armas comeÚaram a ficar cobertas de areia. No rochedo, um dos comandantes virou-se para o general, e disse: ­ Talvez seja melhor pararmos com isto. Eles j quase nÇo podiam enxergar o rapaz. Os rostos estavam cobertos pelos lenÚos azuis, e os olhos agora significavam apenas espanto. ­ Vamos parar com isto ­ insistiu outro comandante. ­ Quero ver a grandeza de Allah ­ disse com respeito o general. Quero ver como os homens se transformam em vento. Mas anotou mentalmente o nome dos dois homens que haviam tido medo. Assim que o vento parasse, ia destituÎ-los de seus comandos, porque os homens do deserto nÇo sentem medo. O vento me disse que vocË conhece o Amor ­ disse o rapaz ao Sol. ­ Se vocË conhece o Amor, conhece tambÊm a Alma do Mundo, que Ê feita de Amor. ­ Daqui de onde estou ­ disse o sol ­ posso ver a Alma do Mundo. Ela se comunica com minha alma, e nÕs, juntos, fazemos as plantas crescerem e as ovelhas caminharem em busca de sombra. Daqui de onde estou ­ e estou muito longe do mundo ­ aprendi a amar. Sei que, se eu me aproximar um pouco mais da Terra, tudo que est nela morrerÂ, e a Alma do Mundo deixar de existir. EntÇo nos contemplamos e nos queremos, e eu lhe dou vida e calor, e ela me d uma razÇo para viver. ­ VocË conhece o Amor ­ disse o rapaz. ­ E conheÚo a Alma do Mundo, porque conversamos muito nesta viagem sem fim pelo Universo. Ela me fala que seu maior problema Ê que atÊ hoje, sÕ os minerais e os vegetais entenderam que tudo Ê uma coisa sÕ. E para isto, nÇo precisa que o ferro seja igual ao cobre, e que o cobre seja igual ao ouro. Cada um cumpre sua funÚÇo exata nesta coisa ßnica, e tudo seria uma Sinfonia de Paz se a MÇo que escreveu tudo isto tivesse parado no quinto dia da criaÚÇo. "Mas houve um sexto dia", disse o Sol. ­ VocË Ê sÂbio porque vË tudo Á dist×ncia ­ respondeu o rapaz. ­ Mas nÇo conhece o Amor. Se nÇo houvesse um sexto dia da criaÚÇo, nÇo haveria o homem, e o cobre seria sempre cobre, e o chumbo seria sempre chumbo. Cada um tem sua Lenda Pessoal, Ê verdade, mas um dia esta Lenda Pessoal ser cumprida. EntÇo Ê preciso transformar-se em algo melhor, e ter uma nova Lenda Pessoal, atÊ que a Alma do Mundo seja realmente uma coisa sÕ. O sol ficou pensativo e resolveu brilhar mais forte. O vento, que estava gostando da conversa, soprou tambÊm mais forte, para que o sol nÇo cegasse o rapaz. ­ Para isto existe a Alquimia ­ disse o rapaz. ­ Para que cada homem busque seu tesouro, e o encontre, e depois queira ser melhor do que foi na sua vida anterior. O chumbo cumprir seu papel atÊ que o mundo nÇo precise mais de chumbo; entÇo ele ter que transformar-se em ouro. "Os Alquimistas fazem isto. Mostram que, quando buscamos ser melhores do que somos, tudo em volta se torna melhor tambÊm". ­ E por que vocË diz que eu nÇo conheÚo o Amor? ­ perguntou o Sol. ­ Porque o amor nÇo Ê estar parado como o deserto, nem correr o mundo como o vento, nem ver tudo de longe, como vocË. O Amor Ê a forÚa que transforma e melhora a Alma do Mundo. Quando penetrei nela pela primeira vez, achei que fosse perfeita. Mas depois vi que ela era um reflexo de todas as criaturas, e tinha suas guerras e suas paixÈes. Somos nÕs que alimentamos a Alma do Mundo, e a terra onde vivemos ser melhor ou pior, se formos melhores ou piores. AÎ Ê que entra a forÚa do Amor, porque quando amamos, sempre desejamos ser melhores do que somos. ­ O que vocË quer de mim? ­ perguntou o Sol. ­ Que me ajude a transformar-me em vento ­ respondeu o rapaz. ­ A Natureza me conhece como a mais sÂbia de todas as criaturas ­ disse o Sol. ­ Mas nÇo sei como transformÂ-lo em vento. ­ Com quem devo falar, entÇo? Por um momento o sol ficou quieto. O vento estava ouvindo, e ia espalhar por todo o mundo que sua sabedoria era limitada. Entretanto, nÇo tinha jeito de fugir daquele rapaz, que falava a Linguagem do Mundo. ­ Converse com a MÇo que escreveu tudo ­ disse o Sol. O vento gritou de contentamento, e soprou com mais forÚa do que nunca. As tendas comeÚaram a ser arrancadas da areia, e os animais soltaram-se de suas rÊdeas. No rochedo, os homens se agarravam uns aos outros para nÇo serem atirados longe. O rapaz se virou entÇo para a MÇo que Tudo Havia Escrito. E ao invÊs de falar qualquer coisa, sentiu que o Universo ficava em silËncio, e ficou em silËncio tambÊm. Uma forÚa de Amor jorrou de seu coraÚÇo, e o rapaz comeÚou a rezar. Era uma oraÚÇo que nunca tinha feito antes, porque era uma oraÚÇo sem palavras ou sem pedidos. NÇo estava agradecendo pelas ovelhas haverem encontrado um pasto, nem implorando para vender mais cristais, nem pedindo para que a mulher que havia encontrado estivesse esperando sua volta. No silËncio que se seguiu, o rapaz entendeu que o deserto, o vento, e o sol tambÊm buscavam os sinais que aquela MÇo havia escrito, e procuravam cumprir seus caminhos e entender o que estava escrito numa simples esmeralda. Sabia que aqueles sinais estavam espalhados na Terra e no EspaÚo, e que em sua aparËncia nÇo tinham qualquer motivo ou significado, e que nem os desertos, nem os ventos, nem os sÕis, e nem os homens sabiam porque tinham sido criados. Mas aquela MÇo tinha um motivo para tudo isto, e sÕ ela era capaz de operar milagres, de transformar oceanos em desertos, e homens em vento. Porque sÕ ela entendia que um desÎgnio maior empurrava o Universo a um ponto onde os seis dias da criaÚÇo se transformariam na Grande Obra. E o rapaz mergulhou na Alma do Mundo, e viu que a Alma do Mundo era a parte da Alma de Deus, e viu que a Alma de Deus era a sua prÕpria alma. E que podia, entÇo, realizar milagres. O simum soprou naquele dia como jamais havia soprado. Durante muitas geraÚÈes os Ârabes contaram entre si a lenda de um rapaz que havia se transformado em vento, quase destruÎdo um acampamento militar, e desafiado o poder do mais importante general do deserto. Quando o simum parou de soprar, todos olharam para o lugar onde o rapaz estava. Ele nÇo estava mais lÂ; estava junto a um sentinela quase coberto de areia, e que vigiava o outro lado do acampamento. Os homens estavam apavorados com a bruxaria. SÕ duas pessoas sorriam: o Alquimista, porque tinha encontrado seu discÎpulo certo, e o General, porque o discÎpulo tinha entendido a glÕria de Deus. No dia seguinte, o general despediu-se do rapaz e do Alquimista, e pediu que uma escolta os acompanhasse atÊ onde os dois quisessem. Caminharam o dia inteiro. Quando estava entardecendo, chegaram em frente a um mosteiro copta. O Alquimista dispensou a escolta, e desceu de seu cavalo. ­ Daqui para frente vocË vai sozinho ­ disse o Alquimista. ­ SÇo apenas trËs horas atÊ as Pir×mides. ­ Obrigado ­ disse o rapaz. ­ VocË me ensinou a Linguagem do Mundo. ­ Eu apenas recordei o que vocË j sabia. O Alquimista bateu na porta do mosteiro. Um monge todo vestido de preto veio atender. Conversaram alguma coisa em copta, e o alquimista convidou o rapaz para entrar. ­ Pedi que me emprestasse um pouco a cozinha ­ disse ele. Foram atÊ a cozinha do mosteiro. O Alquimista acendeu o fogo, e o monge trouxe um pouco de chumbo, que o Alquimista derreteu dentro de um vaso de ferro. Quando o chumbo tinha virado lÎquido, o Alquimista tirou do seu saco aquele estranho ovo de vidro amarelado. Raspou uma camada do tamanho de um fio de cabelo, envolveu-o em cera, e atirou na panela com o chumbo. A mistura ganhou uma cor vermelha, como o sangue. O Alquimista entÇo tirou a panela do fogo e a deixou esfriar. Enquanto isto, conversava com o monge a respeito da guerra dos clÇs. Deve durar muito ­ disse ele para o monge. O monge estava aborrecido. Fazia tempo que as caravanas estavam paradas em Gizeh, esperando que a guerra acabasse. "Mas seja feita a vontade de Deus", disse o monge. ­ Exatamente ­ respondeu o Alquimista. Quando a panela acabou de esfriar, o monge e o rapaz olharam deslumbrados. O chumbo tinha secado na forma circular da panela, mas j nÇo era mais chumbo. Era ouro. ­ Aprenderei a fazer isto um dia? ­ perguntou o rapaz. ­ Esta foi minha Lenda Pessoal, e nÇo a sua ­ respondeu o Alquimista. ­ Mas queria lhe mostrar que Ê possÎvel. Caminharam de novo atÊ a porta do convento. Ali, o Alquimista dividiu o disco em quatro partes. ­ Esta Ê para vocË ­ disse ele, estendendo uma parte para o monge. ­ Por sua generosidade com os peregrinos. ­ Estou recebendo um pagamento alÊm da minha generosidade ­ respondeu o monge. ­ Jamais repita isto. A vida pode escutar, e lhe dar menos da prÕxima vez. Depois aproximou-se do rapaz. ­ Esta Ê para vocË. Para pagar o que deixou com o general. O rapaz ia dizer que era muito mais do que havia deixado com o general. Mas ficou quieto, porque tinha ouvido o comentÂrio do Alquimista com o monge ... ­ Esta Ê para mim ­ disse o Alquimista, guardando uma parte. ­ Porque tenho que voltar pelo deserto, e existe uma guerra entre os clÇs. EntÇo pegou o quarto pedaÚo e deu de novo para o monge. ­ Esta Ê para o rapaz. Caso ele necessite. ­ Mas estou indo em busca do meu tesouro ­ disse o rapaz. Estou perto dele agora! ­ E tenho certeza que ir encontrÂ-lo ­ falou o Alquimista. ­ EntÇo por que isto? ­ Porque vocË j perdeu duas vezes, com o ladrÇo e com o general, o dinheiro que ganhou em sua viagem. Eu sou um velho Ârabe supersticioso, que acredito nos provÊrbios de minha terra. E existe um provÊrbio que diz: "Tudo que acontece uma vez, pode nunca mais acontecer. Mas tudo que acontece duas vezes, acontecer certamente uma terceira". Montaram em seus cavalos. ­ Quero lhe contar uma histÕria sobre sonhos ­ disse o Alquimista. O rapaz aproximou seu cavalo. ­ Na antiga Roma, na Êpoca do imperador TibÊrio, vivia um homem muito bom, que tinha dois filhos: um era militar, e quando entrou para o exÊrcito, foi enviado para as mais distantes regiÈes do ImpÊrio. O outro filho era poeta, e encantava toda Roma com seus belos versos. "Certa noite, o velho teve um sonho. Um anjo lhe aparecia para dizer que as palavras de um de seus filhos seriam conhecidas e repetidas no mundo inteiro, por todas as geraÚÈes vindouras. O velho homem acordou agradecido e chorando naquela noite, porque a vida era generosa, e havia lhe revelado uma coisa que qualquer pai teria orgulho de saber. "Pouco tempo depois, o velho morreu ao tentar salvar uma crianÚa que ia ser esmagada pelas rodas de uma carruagem. Como tinha se comportado de maneira correta e justa por toda a sua vida, foi direto para o cÊu, e encontrou-se com o anjo que havia aparecido em seu sonho. "­ VocË foi um homem bom ­ disse-lhe o anjo. ­ Viveu sua existËncia com amor, e morreu com dignidade. Posso realizar agora qualquer desejo que tenha. "­ A vida tambÊm foi boa para mim ­ respondeu o velho. ­ Quando vocË apareceu em um sonho, senti que todos os meus esforÚos estavam justificados. Porque os versos de meu filho ficarÇo entre os homens pelos sÊculos vindouros. Nada tenho a pedir para mim; entretanto, todo pai se orgulharia de ver a fama de alguÊm que ele cuidou quando crianÚa e educou quando jovem. Gostaria de ver, no futuro distante, as palavras do meu filho. "O anjo tocou no ombro do velho, e os dois foram projetados para um futuro distante. Em volta deles apareceu um lugar imenso, com milhares de pessoas, que falavam numa lÎngua estranha. "O velho chorou de alegria. "­ Eu sabia que os versos do meu filho poeta eram bons e imortais ­ disse para o anjo, entre lÂgrimas. ­ Gostaria que vocË me dissesse qual de suas poesias estas pessoas estÇo repetindo. "O anjo entÇo se aproximou do velho com carinho, e sentaram-se num dos bancos que havia naquele imenso lugar. "­ Os versos de seu filho poeta foram muito populares em Roma ­ disse o anjo. ­ Todos gostavam, e se divertiam com eles. Mas quando o reinado de TibÊrio acabou, seus versos tambÊm foram esquecidos. Estas palavras sÇo de seu filho que entrou para o exÊrcito. "O velho olhou surpreso para o anjo. "­ Seu filho foi servir num lugar distante, e tornou-se centuriÇo. Era tambÊm um homem justo e bom. Certa tarde, um dos seus servos ficou doente, e estava para morrer. Seu filho, entÇo, ouviu falar de um rabi que curava os doentes, e andou dias e dias em busca deste homem. Enquanto caminhava, descobriu que o homem que estava procurando era o Filho de Deus. Encontrou outras pessoas que haviam sido curadas por ele, aprendeu seus ensinamentos, e mesmo sendo um centuriÇo romano converteu-se Á sua fÊ. AtÊ que certa manhÇ chegou perto do Rabi. "­ Contou-lhe que tinha um servo doente. E o Rabi se prontificou a ir atÊ sua casa. Mas o centuriÇo era um homem de fÊ, e olhando no fundo dos olhos do Rabi, compreendeu que estava mesmo diante do Filho de Deus, quando as pessoas em volta deles se levantaram. "­ Estas sÇo as palavras de seu filho ­ disse o anjo ao velho . ­ SÇo as palavras que ele disse ao Rabi naquele momento, e que nunca mais foram esquecidas". Dizem: "Senhor eu nÇo sou digno que entreis em minha casa, mas dizei uma sÕ palavra e meu servo ser salvo". O Alquimista moveu seu cavalo. ­ NÇo importa o que faÚa, cada pessoa na Terra est sempre representando o papel principal da HistÕria do mundo ­ disse ele. ­ E normalmente nÇo sabe disto. O rapaz sorriu. Nunca havia pensado que a vida pudesse ser tÇo importante para um pastor. ­ Adeus ­ disse o Alquimista. ­ Adeus ­ respondeu o rapaz. O rapaz caminhou duas horas e meia pelo deserto, procurando escutar atentamente o que seu coraÚÇo dizia. Era ele que iria revelar o local exato onde o tesouro estava escondido. "Onde estiver seu tesouro, ali estar tambÊm o seu coraÚÇo", dissera o Alquimista. Mas seu coraÚÇo falava em outras coisas. Contava com orgulho a histÕria de um pastor que havia deixado suas ovelhas para seguir um sono que se repetiu duas noites. Contava da Lenda Pessoal, e de muitos homens que fizeram isto, que foram em busca de terras distantes ou de mulheres bonitas, enfrentando os homens de sua Êpoca com seus preconceitos e conceitos. Falou durante todo aquele tempo de viagens, de descobertas, de livros e de grandes mudanÚas. Quando ia comeÚar a subir uma duna ­ e sÕ naquele momento ­ foi que seu coraÚÇo sussurrou ao seu ouvido ­ "esteja atento para o lugar onde vocË chorar. Porque neste lugar estou eu, e neste lugar est seu tesouro". O rapaz comeÚou a subir a duna lentamente. O cÊu, coberto de estrelas, mostrava de novo uma lua cheia; haviam caminhado um mËs pelo deserto. A lua iluminava tambÊm a duna, num jogo de sombras, que fazia com que o deserto parecesse um mar cheio de ondas, e fazia com que o rapaz se lembrasse do dia em que soltara livremente um cavalo pelo deserto, dando um bom sinal ao Alquimista. Finalmente a lua iluminava o silËncio do deserto, e a jornada que fazem os homens que buscam tesouros. Quando, depois de alguns minutos, chegou ao topo da duna, seu coraÚÇo deu um salto. Iluminadas pela luz da lua cheia e pelo branco do deserto, erguiam-se majestosas e solenes as Pir×mides do Egito. O rapaz caiu de joelhos e chorou. Agradecia a Deus por haver acreditado em sua Lenda Pessoal, e por haver encontrado certo dia um rei, um mercador, um inglËs, e um alquimista. Sobretudo, por haver encontrado uma mulher do deserto, que lhe tinha feito entender que o Amor jamais vai separar o homem de sua Lenda Pessoal. Os muitos sÊculos das Pir×mides do Egito contemplavam, do alto, o rapaz. Se ele quisesse, podia agora voltar ao oÂsis, pegar FÂtima, e viver como simples pastor de ovelhas. Porque o Alquimista vivia no deserto, mesmo compreendendo a Linguagem do Mundo, mesmo sabendo transformar chumbo em ouro. NÇo tinha que mostrar a ninguÊm sua ciËncia e sua arte. Enquanto caminhava em direÚÇo Á sua Lenda Pessoal, havia aprendido tudo que precisava, e havia vivido tudo que tinha sonhado viver. Mas havia chegado ao seu tesouro, e uma obra sÕ est completa quando o objetivo Ê atingido. Ali, naquela duna, o rapaz havia chorado. Olhou para o chÇo e viu que, no local onde haviam caÎdo suas lÂgrimas, um escaravelho passeava. Durante o tempo que havia passado no deserto, tinha aprendido que, no Egito, os escaravelhos eram o sÎmbolo de Deus. Ali estava mais um sinal. E o rapaz comeÚou a cavar, depois de lembrar-se do mercador de cristais; ninguÊm conseguiria ter uma Pir×mide no seu quintal, mesmo que amontoasse pedras por toda a sua vida. Durante a noite inteira o rapaz cavou no lugar marcado, sem encontrar nada. Do alto das Pir×mides, os sÊculos o contemplavam, em silËncio . Mas o rapaz nÇo desistia: cavava e cavava, lutando com o vento, que muitas vezes tornava a trazer a areia de volta para o buraco. Suas mÇos ficaram cansadas depois feridas, mas o rapaz acreditava em seu coraÚÇo. E seu coraÚÇo dissera para cavar onde suas lÂgrimas caÎssem. De repente, quando estava tentando tirar algumas pedras que haviam aparecido, o rapaz ouviu passos. Algumas pessoas se aproximaram dele. Estavam contra a lua, e o rapaz nÇo podia ver seus olhos, nem seus rostos. ­ O que vocË est fazendo aÎ? ­ perguntou um dos vultos. O rapaz nÇo respondeu. Mas sentiu medo. Tinha agora um tesouro para desenterrar, e por isso tinha medo. ­ Somos refugiados da guerra dos clÇs ­ disse outro vulto. ­ Precisamos saber o que vocË esconde aÎ. Precisamos de dinheiro. ­ NÇo escondo nada ­ respondeu o rapaz. Mas um dos recÊm-chegados agarrou-o e o puxou para fora do buraco. Outro comeÚou a revistar seus bolsos. E encontraram o pedaÚo de ouro. ­ Ele tem ouro ­ disse um dos salteadores. A lua iluminou a face de quem o estava revistando, e ele viu, em seus olhos, a morte. ­ Deve haver mais ouro escondido no chÇo ­ disse outro. E obrigaram o rapaz a cavar. O rapaz continuou cavando, e nÇo havia nada. EntÇo comeÚaram a bater no rapaz. Espancaram o rapaz atÊ que aparecessem no cÊu os primeiros raios de sol. Sua roupa ficou em frangalhos, e ele sentiu que a morte estava prÕxima. "De que adianta o dinheiro, se tiver que morrer? Poucas vezes o dinheiro Ê capaz de livrar alguÊm da morte", dissera o Alquimista. ­ Estou procurando um tesouro! ­ gritou finalmente o rapaz. E mesmo com a boca ferida e inchada de pancadas, contou aos salteadores que havia sonhado duas vezes com um tesouro escondido junto das Pir×mides do Egito. O que parecia o chefe ficou um longo tempo em silËncio. Depois falou com um deles: ­ Pode deixÂ-lo. Ele nÇo tem mais nada. Deve ter roubado este ouro. O rapaz caiu com o rosto na areia. Dois olhos procuraram os seus; era o chefe dos salteadores. Mas o rapaz estava olhando as Pir×mides. ­ Vamos embora ­ disse o chefe para os outros. Depois, virou-se para o rapaz: ­ VocË nÇo vai morrer ­ disse. ­ Vai viver e aprender que o homem nÇo pode ser tÇo estßpido. AÎ, neste lugar onde vocË estÂ, eu tambÊm tive um sonho repetido h quase dois anos atrÂs. Sonhei que devia ir atÊ os campos da Espanha, buscar uma igreja em ruÎnas onde os pastores costumavam dormir com suas ovelhas, e que tinha um sicÆmoro crescendo dentro da sacristia, se eu cavasse na raiz deste sicÆmoro, haveria de encontrar um tesouro escondido. Mas nÇo sou estßpido de cruzar um deserto sÕ porque tive um sonho repetido. Depois foi embora. O rapaz levantou-se com dificuldade, e olhou mais uma vez para as Pir×mides. As Pir×mides sorriram para ele, e ele sorriu de volta, com o coraÚÇo repleto de felicidade. Havia encontrado o tesouro. EPîLOGO O rapaz chamava-se Santiago. Chegou na pequena igreja abandonada quando j estava quase anoitecendo. O sicÆmoro ainda continuava na sacristia, e ainda se podiam ver as estrelas atravÊs do teto semidestruÎdo. Lembrou-se que certa vez havia estado ali com suas ovelhas, e que tinha sido uma noite tranqØila, exceto pelo sonho. Agora ele estava sem o seu rebanho. Ao invÊs disto, trazia uma pÂ. Ficou muito tempo olhando o cÊu. Depois tirou do alforje uma garrafa de vinho, e bebeu. Lembrou-se da noite no deserto, quando tinha tambÊm olhado as estrelas e bebido vinho com o Alquimista. Pensou nos muitos caminhos que tinha andado, e a maneira estranha de Deus lhe mostrar o tesouro. Se nÇo tivesse acreditado em sonhos repetidos, nÇo tinha encontrado a cigana, nem o rei, nem o salteador, nem... "bom, a lista Ê muito grande. Mas o caminho estava escrito pelos sinais, e eu nÇo tinha como errar", disse para si mesmo. Dormiu sem perceber, e quando acordou, o sol j ia alto. EntÇo comeÚou a escavar a raiz do sicÆmoro. "Velho bruxo", pensava o rapaz. "VocË sabia de tudo. Deixou atÊ mesmo um pouco de ouro para que eu pudesse voltar atÊ esta Igreja. O monge riu quando me viu voltar em frangalhos. NÇo podia me poupar isto?" "NÇo", ele escutou o vento dizer: "Se eu tivesse lhe contado, vocË nÇo teria visto as Pir×mides. SÇo muito bonitas, nÇo acha?" Era a voz do Alquimista. O rapaz sorriu e continuou a cavar. Meia hora depois, a p bateu em algo sÕlido. Uma hora depois ele tinha diante de si um baß cheio de velhas moedas de ouro espanholas. Havia tambÊm pedrarias, mÂscaras de ouro com penas brancas e vermelhas, Îdolos de pedra cravejados de brilhantes. PeÚas de uma conquista que o paÎs j havia esquecido h muito tempo, e que o conquistador se esquecera de contar para seus filhos. O rapaz tirou o Urim e o Tumim do alforje. Tinha utilizado as duas pedras apenas uma vez, quando estava certa manhÇ, num mercado. A vida e o seu caminho estiveram sempre cheios de sinais. Guardou o Urim e o Tumim no baß de ouro. Eram tambÊm parte de seu tesouro, porque lembravam um velho rei que jamais tornaria a encontrar. "Realmente a vida Ê generosa com quem vive sua Lenda Pessoal", pensou o rapaz. EntÇo lembrou-se de que tinha que ir atÊ Tarifa, e dar um dÊcimo daquilo tudo para a cigana. "Como sÇo espertos os ciganos", pensou. Talvez fosse porque viajavam tanto. Mas o vento voltou a soprar. Era o Levante, o vento que vinha da âfrica. NÇo trazia o cheiro do deserto, nem a ameaÚa de invasÇo dos mouros. Ao invÊs disto, trazia um perfume que ele conhecia bem, e o som de um beijo ­ que veio vindo devagar, devagar, atÊ parar em seus lÂbios. O rapaz sorriu. Era a primeira vez que ela fazia isto. ­ Estou indo, FÂtima ­ disse ele.